7.1 Apanha de fruta

Até cerca das 10h00 a execução da nova função, embora exigindo algum esforço, ficava aquém da dificuldade imaginada por João Miguel.

Pedro Bacéu explicara-lhe o procedimento com minúcia e o método bastante artesanal acabava por surtir efeito.

Só que a partir do meio da manhã com o calor a fazer-se sentir, a tarefa complicava-se. Às 11h30 João Miguel estava estafado, transpirado e cheio de sede. Um dos trabalhadores notou.

  • Muito cansado? – questionou
  • Um pouco – respondeu João Miguel.
  • Isto ao principio custa.

Vinte minutos mais tarde apareceu Pedro Bacéu.

  • Já me disseram que há aqui alguém a precisar de socorro – gracejou.
  • Não é caso para tanto – respondeu João Miguel.
  • Descanse um pouco, por que não? – condescendeu Pedro Bacéu. Fez mais do que eu quando me iniciei.
  • Obrigado – respondeu João Miguel.
  • Mais um quarto de hora e vamos almoçar.
  • Ok.

A fruta era apanhada e colocada em cestas de cores diferentes consoante a qualidade: maçãs ou peras. O transporte para o caramachão era realizado por pessoas que não efetuavam a colheita. A primazia da recolha era dada às peras.

Antes do almoço Pedro Bacéu informou que teria de passar pelo armazém e fez sinal a João Miguel para ir consigo.

Ao entrarem no espaço nas 2ª e 4ª divisões à direita, João Miguel apercebeu-se que a fruta estava a ser dividida por dimensão. Uma escolha manual, realizada por mulheres.

  • Estas pessoas são da terra. Vêm aqui dar uma ajuda; a umas quantas pagamos, a outras não, trocamos serviço.
  • Como assim?
  • Também elas têm hortas ou pomares e quando necessário nós vamos trabalhar nas propriedades delas. Não são muitas, mas é um grupinho e uma colaboração interessante. E estabelecem-se laços.
  • O trabalho é todo feito manualmente pelo que me é dado constatar…
  • João Miguel compreendo a sua surpresa mas veja, nós estamos de início. É impossível para já conseguirmos investir em maquinaria. Primeiro temos de nos certificar que conseguiremos levar por diante esta aposta. Eu estou convicto que sim mas…
  • Claro! – exclamou João Miguel – olhando em frente com ar seguro.
Pedro não permitiu que continuasse.
  • O quanto eu gostaria de modificar estes procedimentos mas seria dar um passo maior do que a minha perna, como se costuma dizer.
  • Bom Pedro como deve ter entendido, eu estou realmente a gostar de estar aqui e acredito e quero acreditar que a sua aposta seja viável. Para mim tudo é novidade e tremendamente diferente do que fazia antes.
  • Eu sei. Aliás eu e a Guida também transformámos totalmente os nossos hábitos e estamos felizes com a resolução que tomámos. de qualquer forma agradeço a frontalidade e todosos seus comentários serão bem vindos. Deixe-me apenas dizer-lhe: a troca de serviços que temos com os demais caba por ser benéfica para todos, sabe porquê?
  • Fortalece relacionamentos?
  • E não só. Veja o trabalho é gratuito logo não se reflete nos preços finais dos nossos produtos.
  • Sem dúvida. Não tinha pensado nessa parte.
  • Embora seja impensável competir com os grandes produtores esse ponto acaba por jogar um pouco a nosso favor. Agora vamos almoçar e concentrarmo-nos noutros assuntos.

João Miguel limitou-se a sorrir.

Pedro Bacéu abriu a porta de casa, segurando-a para deixar passar o amigo.