5.3 Audiência II

Linda sentia-se deslocada. Estava a exercer aquela função há pouco mais de dois meses e detestava. Detestava escrever! Detestava ter de tomar anotações sobre todos os diálogos em curso.

O seu trabalho já tinha sido elogiado e pese embora tivesse noção de que o executava bem, continuava a olhá-lo como assaz entediante e ultrapassado. No entanto, as circunstâncias impunham que as suas sensações não fossem mais do que meras pequenas nuvens num dia cheio de sol.

Logo que audiência começou, Linda iniciou as suas anotações ficando satisfeita pela batida ritmada com que a sessão decorria. A determinada altura escreveu:

  • “O documento que exibo, como Prova A da acusação, mostra que no ano transato, mês de Abril, a empresa em questão publicou uma listagem de movimentos assinada pelo réu no valor total de Eur 2.524,00. Até aqui não nada tenho a objetar. Mas quando nos debruçamos sobre um outro documento, datado de 26 de Abril do mesmo ano – nossa Prova B – não publicado que analisa precisamente a mesma área, o saldo é completamente diferente e muito superior – Eur 5.940,00.
  • Protesto! Esse documento nunca foi apresentado.
  • Indeferido! Aproximem-se os Senhores Advogados.”

Linda parou de escrever e esperou que os dois advogados regressassem aos seus lugares após breve troca de impressões com o Juiz.

  • Middletune, vou aceitar esse documento como prova. Espero que esteja diretamente relacionado com o caso. Seja breve na sua exposição.
  • Vou ser. Obrigado Meretíssimo.
  • Mas como é possível? Este documento não constava da compilação de documentos da acusação – retorquiu Duncan Alby.
  • Só conseguimos este documento ontem. Não houve tempo – justificou Robert Middletune.
  • Basta. Vamos prosseguir – atalhou o Juiz.

Retomada a audiência, Linda continuou a tomar notas. Pela primeira vez estava realmente atenta ao processo em si.

  • “Este documento – Prova B – tem um saldo que não confere com o anterior. Ora o réu deverá esclarecer-nos sobre essa diferença.
  • O Sr. Anthony Sims desconhece o motivo da existência dessa diferença. A empresa não é do Sr. Sims.
  • Mas existe esta diferença e não é a única. O documento foi assinado pelo Sr. Sims. O dono não pode esclarecer dado que desapareceu há uma semana. Assim, o seu cliente é a única pessoa que poderá explicar a diferença entre os dois documentos.
  • Insisto que apenas outra ou outras pessoas da empresa que não o meu cliente poderão esclarecer esse e outros dados.
  • Convém relembrar que essa mesma firma solicitou auxílio pouco depois da data mencionada, devido a uma situação financeira catastrófica.
  • Protesto. Não se enquadra no assunto que estamos a tratar.
  • Indeferido.
  • Muito pelo contrário, a questão está totalmente relacionada. E o documento foi publicado pelo seu cliente.
  • Sim. Com autorização! – argumentou Alby. E continuou: A pessoa a quem deverá colocar essa questão não está presente. Assim…
  • Mais calma, Senhores Advogados – avisou o Juiz.
  • Eminência, gostaria de continuar – disse Middletune.”
Subitamente, ouviu-se o martelo.
  • “Senhores – interrompeu o Juiz Jeffrey N. Stunt – neste momento a minha decisão está tomada. Este processo será interrompido por tempo indeterminado até ser localizado o dono da Precious. Após a sua localização, a acusação terá uma semana para informar por escrito este Tribunal.
  • Uma semana é muito pouco tempo, Eminência.
  • Quinze dias, então. A audiência está encerrada.”

Linda parou de escrever. Ouviu-se de novo o martelo.