5.1 Pulverização

O dia estava magnífico, o céu azul embora uma brisa fresca e húmida tendesse a perpassar qualquer peça de lã mais fina.

Vestiram as parkas que se encontravam à sua espera no bengaleiro do vestíbulo e saíram em direção ao campo.

Pedro Bacéu ligeiramente à frente começou a apressar o passo e João Miguel atrás, a sentir o aroma das flores da entrada.

  • Aqui sente-se mais este vento do que na zona das árvores, dado estarem num terreno mais baixo. De qualquer forma, vamos preparar a pulverização no caramachão, levamos os fato vestidos e quando chegarmos ao terreno logo veremos se as condições são propícias ao tratamento ou não.
  • De acordo – respondeu João Miguel, que o seguia pelo carreiro como uma sombra.

Chegaram ao caramachão, de média dimensão, construído em madeira e cuja cobertura em placas de lusalite era notoriamente frágil para as condições climatéricas da zona. Pelo menos assim pensou João Miguel, embora não verbalizasse qualquer opinião.

Pedro Bacéu deu duas voltas com a chave que retirou do seu bolso e a porta do armazém abriu-se.

Para surpresa de João Miguel, o interior contrastava com o exterior da construção. O local, iluminado com lâmpadas fluorescentes suspensas estava convenientemente dividido por oito áreas, quatro de cada lado de um corredor central largo. Cada uma dessas áreas tinha várias prateleiras de dexion.

  • Os produtos e o restante que precisamos encontram-se na terceira área à esquerda-informou Pedro Bacéu enquanto caminhava já pelo corredor.
  • Mas isto está muito organizado!
  • Agora está! Nem imagina o estado deste caramachão quando adquirimos a propriedade. Tudo isto foi ideia nossa, adquirido e organizado por mim e pela Guida, com a ajuda do Manuel Serra e dum vizinho – que ainda não conhece – o Leopoldo, Leo como o tratamos, dono do terreno a seguir a este.
  • Quem vê o caramachão do lado de fora não idealiza a arrumação do interior. Um verdadeiro armazém – acabou por dizer João Miguel. E atreveu-se a perguntar: – O telhado, a cobertura é segura? Não há o risco de voar em caso de vento forte?
  • Não ! Mantivemos as placas existentes porque era muito caro comprar placas novas para toda a área mas fizemos obras para ficarem devidamente acondicionadas. Aqui não entra água nem vento. Vê ali?
  • O quê? – perguntou João Miguel.
  • Antes das placas de lusalite ondulado há uma placa isolante em toda a extensão onde assentam as outras, i. é, o que se vê do lado de fora.
  • Ah! Sim, estou a compreender. Engenhoso!
  • Teve de ser! Este local dá muito jeito e estava totalmente subutilizado. Bom, aqui temos os manuais na prateleira do meio  – indicou Pedro ao chegarem à terceira divisória. Vamos fazer uma consulta rápida para confirmar a quantidade dos químico a aplicar e a duração da sua atuação.

João Miguel debruçou-se sobre Pedro Bacéu para ler melhor as instruções do livro.

  • Ora temos que para 1 litro de água deveremos misturar 10 mg de Flint… E 16 ml de Garbol.
  • Estes tratamentos são para as macieiras – constatou João Miguel.
  • Sim,  pedrado e cochonilha! Temos de preparar cerca de 6 litros – 3 litros para cada um dos suportes por produto que transportaremos tipo mochila. os suportes estão deste lado, ali em cima. Vê?
  • Prático, sim.
  • Quantidades…
  • Para três litros por suporte serão 3 medidas de cada produto, na marca 10 mg para um e na de cerca de 15 ml para o outro. É fácil – disse João Miguel.
  • Eu costumo fazer doutra maneira, mas o João Miguel simplificou a operação. Vou reverificar se deverão ser 3 litros de cada. E voltou a pegar no livrinho. O outro ficou a aguardar pela conclusão agachado junto aos dois suportes, segurando um de cada lado na vertical para não tombarem.
  • Sim, confirma-se. Agora, tenho aqui um garrafão de água vazio que servirá de medida.

Os preparados foram elaborados. Os suportes devidamente fechados ficaram encostados às prateleiras enquanto os dois homens vestiam os fatos, tipo gabardina, com fecho nas costas.

Pedro Bacéu entregou uma máscara a João Miguel e tirou uma para si também. Colocaram os recipientes nas costas. Pedro apagou as luzes e fechou o caramachão.

  • Agora seguimos em frente por este outro carreiro do lado esquerdo. Subimos um pouco até ao topo e depois descemos e viramos à direita.

Atravessaram o terreno da plantação de cebolas à esquerda. À direita, a área de cultivo de cenouras e continuaram até à zona das árvores de fruto.

  • Não está muito vento, pois não? – tentou confirmar Pedro Bacéu.
  • Não, aqui não se sente praticamente nem uma aragem.
  • Vamos aplicar o tratamento. Este suporte metálico enrosca na extremidade do tubo e apertamos esta patilha aqui atrás para sair o produto. Assim vê?
  • Muito bem – disse João Miguel. Atarrachou a parte metálica e experimentou.
  • Colocamos a máscara e evitamos pulverizar muito na vertical para não ficarmos cobertos de químico, ok?
  • Vou tentar. Separamo-nos?

As árvores estavam dispostas em quatro fileiras e mostravam ter distâncias certas entre elas.

  • Sim. Cada um para o seu lado – exterior – e encontramo-nos de novo aqui ao centro quando concluirmos. Eu vou pelo esquerdo. Vamos a isto!
  • Certo – deixou sair João Miguel.