4.1 As árvores

O dia tinha decorrido de uma forma surpreendente para João Miguel. Ao recolher ao seu quarto reviu mentalmente os locais visitados e a simpatia das pessoas. E quanta calma! – considerou de si para si. A imagem do oceano a embater teimosamente nas rochas da baía ajudou-o a adormecer em escassos segundos.

O despertador tocou pontualmente, às 06h30. Estonteado, trancou a patilha do relógio e olhou para o teto. Não sabia onde estava… Optou por voltar-se na cama e aconchegar o cobertor. Subitamente levantou-se.

Ainda ensonado, dirigiu-se ao quarto de banho. Teria de tomar um duche para acordar. Pedro Bacéu gostava de começar cedo e havia de cuidar do trabalho no campo. Aprender – pensou. Reaprender a viver. Volvidos 10 minutos já estava no piso inferior.

  • Bom dia, Margarida.
  • Olá  João Miguel. Tem aqui pão, leite, manteiga. Gosta de torradas?
  • Imenso. Mas não agora. Vou tomar um café com um biscoito.
  • Só isso?
  • Sim, Guida, ainda é muito cedo…
  • João Miguel, bom dia. Caramba, madrugou homem! – exclamou Pedro Bacéu ao entrar na sala.
  • Bom dia Pedro. Tenho de começar a aprender. Quanto mais cedo, melhor!
  • Vamos a isso. Mas primeiro, o pequeno-almoço. Estou cheio de fome.

Sabe, estou a pensar que se não estiver vento ou uma aragem forte, iremos iniciar o trabalho numa área mais pequena com cerca de 800m2, onde temos algumas árvores de fruto, só para consumo interno.

  • É necessário apanhar alguma fruta?
  • Não, não é isso. Ele não entende mesmo nada de agricultura – pensou Pedro Bacéu enquanto tomava mais um gole de café com leite. E continuou: há que prevenir os efeitos nocivos da mosca, por isso tem de se pulverizar as árvores com os produtos químicos adequados para que a fruta se desenvolva sem bicho, sã.
  • Ah, sim?! E tem os produtos, suponho?
  • Claro. Lembra-se do caramachão por onde passámos no regresso do passeio de ontem?

João Miguel anuiu com um aceno de cabeça.

  • Bom, esse caramachão dista uns bons metros do terreno mas não temos outro local onde guardar os produtos. Aí estão os químicos, o fato próprio, as luvas e o pulverizador. E os manuais sobre os produtos, épocas de aplicação, etc. O João Miguel sabe que até há bem pouco tempo eu não tinha praticamente qualquer conhecimento nesta área – afirmou como incentivo ao interlocutor.  Recorro frequentemente a manuais. E ao Manuel Serra.
  • E a outros – acrescentou Margarida – tomando um golo de leite. A propósito, no ano passado essas árvores deram tanta fruta que decidimos que seria melhor confecionar doce para venda. Eu nunca tinha feito uma compota na minha vida. Valeu-nos a receita e a ajuda de Brígida, a mulher do Manuel Serra. E da mãe do Pedro. Em abono da verdade, a minha mãe nunca foi grande cozinheira, muito menos doceira, não seria lógico recorrer a ela.
  • Pois… E comercializaram o doce? Teve boa venda? – perguntou João Miguel.
  • Teve, mas não por aqui, onde todas as pessoas fazem o mesmo que nós… Até bem melhor.  E prosseguiu: olhe através de um contato do Carlos Maria, colocámos a compota à venda numa loja em Lisboa. Este género de lojas/mercados têm um conceito giro, algo novo, pelo menos para mim. Mas falaremos disso com detalhe, mais tarde. Temos de ir para o campo.
  • Eu já acabei. Vamos!