3.5 Patrick S. Dynt

Bateu à porta antes de entrar. Ouviu-se uma voz: – Entre.

Abriu a porta suavemente e tentou localizar Patrick S. Dynt. Estava junto à janela, voltado na sua direção.

  • Bom dia, Patrick.
  • Olá Duncan. Muito pontual. – exclamou Patrick S. Dynt, sorrindo.                     Sabe que gosto de ir direto ao assunto. Como estamos com o caso do Belga?
  • Tivemos alguns progressos. Localizámos algumas provas e testemunhas que podem abonar a nosso favor. A investigação ainda prossegue, claro.
  • Mas sinto alguma insegurança na sua voz, não é verdade?
  • Insegurança?! Bom, não é bem isso. A questão relaciona-se com a ausência de uma base sólida no caso. Algo não bate certo. É instintivo, nada que se tenha conseguido atingir fatualmente.
  • Intuitivo, intuição. Nem sei que lhe responda – retorquiu Patrick S. Dynt. Os processos nesta firma não se conduzem, nem têm um percurso baseado na intuição dos nossos advogados.

Parou por segundos, olhando fixamente a secretária de madeira escura. Depois fitando Duncan, questionou:

  • Não acredita no Belga, é isso?
  • Também não é bem isso… Só que temo que esteja a omitir dados importantes. O seu nervosismo é absolutamente desconcertante. Sabe, para uma pessoa sem nada a temer e na posição dele, tamanha pressão nervosa é muito estranha. A menos que ele duvide da competência dos meus préstimos.
  • Duncan, isso não será também insegurança sua perante o seu opositor, Robert Middletune?
  • De todo!

Patrick S. Dynt levantou-se da sua cadeira e deu dois ou três passos até atingir uma estatueta próxima do sofá maior, na zona central do gabinete. E continuou num timbre de voz calmo:

  • Estou a tentar desmistificar o assunto – esclareceu. Considera que o Belga poderá estar a omitir fatos, mais concretamente falemos claro, números. Tentou verificar todas as suas ligações? Estará a ser pressionado por terceiros?
  • Tive em consideração esse aspeto, mas a audiência preliminar foi marcada com um intervalo de tempo demasiadamente curto. Não tivemos possibilidade de aprofundar essa questão – explicou Duncan Alby.

E acrescentou:

  • Mesmo sem provas que possam cimentar as minhas impressões este é dos tais processos que têm tudo para poderem vir a causar-nos problemas. É demasiado simplista, por isso não bate certo.
  • Duncan as suas dúvidas podem ser totalmente infundadas.
  • Espero sinceramente que sim.                                                                            Não querendo tomar-lhe muito tempo, repare: num assunto que aparentemente poderá ter uma solução fácil, por quê recorrer a uma das mais prestigiadas firmas de advogados da cidade? Pagar honorários altíssimos quando qualquer advogado mediano, a trabalhar sozinho poderia defendê-lo? Depois a marcação muito súbita da audiência, a escolha de um dos melhores advogados na barra por parte da acusação. Eu sei que são apenas detalhes, mas para mim…
  • Algo não bate certo! – rematou Patrick S. Dynt. É a nossa reputação que também está em jogo… Já ponderou partir-se para um acordo?
  • Já, mas o Belga mostra-se muito reticente, mesmo relutante. Não obstante, não se abre, invoca apenas que necessita ser credível. É um sujeito muito peculiar.
  • Prefere a entrega do processo a outro advogado? – indagou S. Dynt, pausadamente. – Paul Trimble, por exemplo?
  • Não, não é isso. Eu estou empenhado neste caso.
  • Só que tem dúvidas… – disse Patrick S. Dynt, distraídamente como se falasse para um júnior.

Duncan Alby compreendeu que o diálogo estava praticamente terminado. Que perda de tempo – pensou.

  • Duncan, vamos levar por diante o processo. Caso se venha a encontrar algum obstáculo, informe-me de imediato.
  • Sem dúvida. Obrigado.

E saíu.