3.3 Pelas redondezas

Soprava uma aragem quente que acariciava os rostos, quando João Miguel e Pedro Bacéu saíram de casa em direção ao jipe.

O aroma das flores pairava no ar e continuava a surpreender João Miguel para quem todo o ambiente era uma novidade que aturdia o seu subconsciente citadino.

A expressão carrancuda de Pedro contrastava com uma faceta comunicativa e muito cativante.

  • Não estou a conseguir acompanhar toda esta informação, mas começo a simpatizar com ele – pensou João. Está a tentar ambientar-me…

O trilho desde a saída da casa até à estrada principal de terra batida foi feito devagar e com muitos solavancos.

A povoação mais próxima encontrava-se a cerca de 20 minutos. Pedro mostrou uma condução desenvolta mas calma, e durante todo o percurso mostrou-se mais concentrado na conversa  e em João Miguel do que propriamente na chegada à cidade.

  • É tão reservado, que mais parece querer esconder-se. Ou então está traumatizado… Caramba, não consigo entender nada deste tipo – congeminou Pedro Bacéu de si para si.

Depois recordou-se das frases da sua Guida: “Nem tudo o que parece, realmente é, Pedro. As conclusões são bem melhores quando fortificadas pelo tempo.”

E prosseguiu com a sua descrição da complicação com o arranjo do motor do poço. João Miguel escutava-o atentamente.

Estacionaram no centro da vila, numa praça rodeada de edifícios municipais.

Pedro Bacéu apressou-se a sair do carro e a indicar uma das ruas que desembocava naquele largo. João Miguel seguiu o seu exemplo, saindo do jipe.

  • Vê aquela rua? – perguntou Pedro. João Miguel anuiu com um aceno de cabeça.
  •  Ali encontramos praticamente tudo o que precisamos para o nosso dia-a-dia: sementes de cultivo , ferramentas, peças para arranjo de máquinas, lojas de fruta… um mini-mercado, padaria…
  • Tem alguma pastelaria? questionou João Miguel, interrompendo.
  • Não me diga que ficou com fome?!
  • Oh, não de forma alguma. Apenas pensei que poderíamos tomar a bica. Sabe, é a força do hábito – explicou um pouco a medo.
  • Pois, nós nunca tivemos esse costume, mas há muitas pessoas assim. Então vamos primeiro à Pastelaria Torrente, por ali à direita e depois atravessamos em sentido contrário para fazermos algumas compras.
  • Mas se lhe fizer diferença, podemos seguir já para as compras.
  • Não, esta tarde será dedicada a mostrar-lhe a zona. Esta pastelaria para onde nos dirigimos tem um fabrico excelente e a última vez que recebemos os padrinhos da Margarida, o Joaquim adorou a bica na pastelaria. Na altura também estivemos no café da terra, mas segundo ele, ou pela ausência de creme ou pelo lote, o café não era tão bom. Eu como não sou apreciador, tenho de confiar na opinião dos entendidos.
  • Então, vamos lá experimentar a bica da pastelaria!

Atravessaram a praça, contornaram um pouco à direita e entraram  numa rua algo estreita. Faltavam ainda alguns metros para chegarem ao local, quando se ouviu uma voz:

  • Bacéu, então pelo centro?

Pedro olhou à sua volta, quando de repente surgiu um homem alto a sair da porta de um prédio de dois andares, muito necessitado de pintura.

  • Manuel, eu nem o via… É verdade, estou a mostrar a cidade a João Miguel, que chegou à ilha e a nossa casa ontem.
  • Benvindo! exclamou Manuel, estendendo a mão para cumprimentar João Miguel. Vem colaborar na quinta?
  • Boa tarde. Prazer! Espero que sim – respondeu João Miguel.
  • Vamos tomar um café na Torrente. Os citadinos sentem falta da bica, sabes!?
  • Eu também vou. Como vai a plantação? E a Guida?
  • A Guida está ótima! A plantação um pouco atrasada mas se tudo correr bem, estará terminada antes das primeiras chuvas.
  • Pedro, se precisares de uma ajuda suplementar, já sabes que podes contar comigo. Ao fim-de-semana, claro.
  • Manuel, obrigado. Eu não gosto nada de pesar os outros com os meus assuntos, mas provavelmente desta vez vou ter de aceitar.
  • Então e eu? Poderei certamente trabalhar nesse cultivo… – interrompeu João Miguel.
  • E vai trabalhar. Só que até ter prática ainda vai demorar…
  • No final da semana podes contar comigo e com a Brigida. Ela poderá dar uma mãozinha à Guida  e fazer-lhe um pouco de companhia. As mulheres gostam de conversar!
  • Combinado! Aparecem sexta-feira à noite ou no sábado de manhã?

Entretanto já tinham entrado na pastelaria Torrente. As mesas dispostas em tipo L invertido estavam na sua maioria ocupadas por estudantes mas também por alguns idosos.

Ficaram ao balcão, onde o funcionário, um homem robusto e sorridente que aparentava ter entrado nos finais de uns cinquenta muito bem vividos, acabava de atender uma cliente que comprava ‘petit-fours’.

Após alguns instantes dirigiu-se aos três clientes recém-chegados.

  • Viva, boas-tardes! Que vai ser?
  • Boa tarde. Três bicas – pediu João Miguel.
  • Não, para mim não – informou Pedro Bacéu.
  • Nesse caso, são duas bicas.
  • E água, Serafim. Três copos por favor – acrescentou Manuel.

Pedro e Manuel continuaram a acertar os detalhes para o final da semana, e João Miguel alheou-se por instantes daquele diálogo. Estava algo ansioso pela bica. Olhou em redor, observando o local e constatou que apesar da falta de tato na decoração, respirava-se uma atmosfera acolhedora.

As bicas foram servidas. O café era excelente. João Miguel sentiu-se reconfortado, e voltando-se novamente para as mesas considerou que talvez fossem os estudantes a converter o espaço, impregnando-o com um lastro de alegria. Ah, a juventude! – pensou.

  • João Miguel, que tal a bica?
  • Muito boa, forte, tal como eu gosto. – respondeu.
  • Eu não lhe disse?! Já sabe, quando quiser dá aqui um pulinho.
  • Ou quando puder, Pedro.
  • Se seguir o ritmo da Guida e do Pedro só voltará a tomar um café daqui a um mês – afirmou Manuel, voltando-se para João Miguel. Esses dois estão sempre a cuidar da vida.
  • Ora Manuel, estamos ainda de início, temos de nos esforçar e muito que aprender.
  • Também é verdade! anuiu Manuel. Que tal lhe pareceu a propriedade?
  • É uma boa casa. Não conheci ainda toda a área de terreno, mas pareceu-me muito extensa – respondeu João Miguel.
  • Chegou quando? – tentou confirmar Manuel.
  • Ontem à noite, muito tarde.
  • Ah, pois… – disse Manuel pondo um ar compreensivo.
  • Hoje ainda iremos dar uma volta pelos terrenos. É melhor irmos andando, temos de passar pela loja – atalhou Pedro Bacéu. E voltou-se para João Miguel. E quero também mostrar-lhe o resto da vila e o miradouro.
  • Eu também tenho de ir – disse Manuel Serra. Até sábado.

João Miguel fez questão em pagar os cafés e saíram os três da pastelaria. Tomaram direções distintas: Manuel seguiu em frente. João Miguel e Pedro Bacéu retrocederam até à praça, atravessaram-na e dirigiram-se à rua de “todas as compras”.

João Miguel lembrou-se da extensão de fio que teria de adquirir para a ligação do portátil e afinal, até a extensão poderia ser comprada nessa mesma rua.

Por ali todas as pessoas se cumprimentavam e conversavam sobre tudo e sobre nada.

No meio de muita conversa entre Pedro Bacéu e os comerciantes e demais clientes do comércio local, acabaram por regressar ao jipe com dois sacos de compras, a extensão de fio e uma tira de papel com a confirmação de entrega dos produtos agrícolas no início da manhã do dia seguinte.

  • Vou mostrar-lhe o miradouro, penso que irá gostar – disse Pedro Bacéu.

E saíram da vila contornando a praça, rumo a norte.