3.2 O processo

Duncan acordava sempre muito cedo. Era um hábito crónico, e mesmo quando não era necessário levantava-se ao romper do dia.

Durante a semana, gostava de ter muito tempo para todos os pormenores: reler os papéis com anotações, reverificar os dados a transportar, ouvir os primeiros noticiários do dia, abrir a janela envidraçada da varanda e decidir a cor do fato para esse dia, da gravata e da pasta. Seguidamente dava uma passeio com o seu cão Tim.

No regresso, preparava o pequeno-almoço para ambos e finalmente tomava o seu duche, barbeava-se e saía calmamente despedindo-se calorosamente de Tim.

O percurso até ao escritório parecia-lhe sempre curto, dado os poucos carros a circular àquela hora. A hora de ponta seria mais tarde. À saída da sua zona residencial, apreciava a tonalidade das folhas das árvores que ladeavam a avenida e depois embrenhava-se nas artérias da cidade. Ao chegar ao seu edifício, contornava-o até visualizar a entrada para a garagem, onde tinha um lugar cativo para estacionamento no piso imediatamente inferior à entrada do prédio.

O seu gabinete localizava-se na área central do 3º andar, sob o lado direito do elevador principal. O piso era todo alcatifado num imponente vermelho escuro e o corredor de acesso aos diversos gabinetes e salas tinha várias litografias alusivas à cidade emolduradas a dourado, numa ordenação quase cronológica.

O seu espaço, de dimensão média, tinha uma outra secretária que raramente estava ocupada. Destinava-se à representante da firma na filial de Auckland, para os raríssimos casos em que a sua deslocação profissional à cidade se tornava imperiosa, o que sucedia apenas em reuniões com clientes internacionais ou em formações, e cuja duração não excedia os três ou quatro dias.

Apesar da sensação de uma comodidade clean, o ambiente estava impregnado de stress.

O computador sinalizava persistentemente que existiam três mensagens importantes por ler, pelo que urgia dar-lhes atenção para conseguir que o repetitivo som ‘clack’ pre-configurado parasse.

Uma delas pertencia ao cliente cujo processo iria ser avaliado em audiência preliminar a meio dessa manhã. Anthony Sims pareceu-lhe muito ansioso, o que significava que Duncan Alby teria ainda de reservar um espaço de tempo para falar com ele pessoalmente antes do início da audiência.

A outra mensagem era do Senior Partner da firma, Patrick S. Dynt. Solicitava uma reunião para ponto de situação daquele caso. Embora sendo um procedimento comum, este género de marcações de última hora deixavam sempre alguns laivos de desconforto em Duncan Alby.

Sentado à sua secretária, não chegou a ler a terceira mensagem e o seu olhar desviou-se para o telefone. Discou a extensão da sua assistente e pediu um café e somente depois voltou a dedicar-se às mensagens.

O café foi servido breves instantes depois e Duncan olhou para as horas. Tinha precisamente 10 minutos até à reunião , entretanto aceite via eletrónica. Recostou-se na sua cadeira e rodopiou em direção à janela e ao céu azul da cidade, mostrando-se extático.

Todavia, a hesitação de Duncan crescia a cada segundo. Não existiam muitas opções – pensou. Apenas duas de acordo com o seu critério. Ou transmitia a única inconsistência do caso, aquela que poderia ser a pedra de toque para a derrocada da sua argumentação de defesa e consequente perda do processo, ou optava por omiti-la.

Duncan tentou dissecar friamente as vantagens e desvantagens das duas opções. Se não divulgasse essa fragilidade, bem localizada, mais tarde em caso de derrota, seria certamente acusado por Dynt de ter negligenciado ou omitido um dado crucial. Se optasse por mencioná-lo, mais uma vez seria acusado de pessimismo e ouviria pela milésima vez uma palestra sobre as vantagens de ser menos minucioso  e mais eloquente – em segredo, Patrick S. Dynt pensaria que ele estava a vacilar perante o mais temido adversário, Robert Middletune. No entanto, as falhas na identificação e de provas levavam Duncan a considerar que para um advogado com o renome e competência de Middletune, seria impossível passarem sem serem detetadas, por mais que uma oratória bem construída, forte e evasiva fosse avançada.

Como  recurso, em sua opinião seria preferível tentar-se desde já um acordo do que deixar prosseguir o caso. Sem mais.

O tempo parece ter galopado – pensou Duncan Alby. Vestiu o seu casaco, ajustou a gravata, pegou no laptop e saiu do gabinete.