3.1 Roberta Trenni

O apartamento era pequeno. Uma acertada escolha de móveis, na sua maioria brancos, dera ao espaço uma aparente amplitude, e a disposição de objetos e almofadas vermelhos transmitia logo à entrada, uma alegria espontânea ao visitante.

Roberta Trenni preparava o tabuleiro para o café quando a campainha da porta soou. De imediato, Roberta pulou sobre a sua direita, esticou o braço premiu o botão da máquina de café no On e impacientou-se em direção à porta. Ao abrir deparou-se com Maria, a sua vizinha do (1ºD).

  • Ah – suspirou em tom de surpresa. Recompôs-se.
  • Sim, Maria? – acabou por balbuciar.
  • Olá Roberta. Pode por favor baixar o som da sua música? Sabe, estamos a tentar descansar e não conseguimos.
  • Oh, desculpe! Vou baixar, claro que sim. Nem estava a reparar que estava tão alto.
  • Obrigada. Até amanhã.
  • Xau!

Fechou a porta devagar, sorriu tapando a boca e encostando-se levemente à parede por um instante. Em seguida, baixou o volume de som da música e regressou à kitchenette para colocar uns biscoitos no tabuleiro e verificar o nível de água da máquina, quando a campainha se fez ouvir novamente. Será que o som da música não está ainda suficientemente baixo?- murmurou para si.

Abriu a porta e lançou um olhar atónito. Afinal, era Francesca.

  • Pareces admirada. Enganei-me no dia ou na hora? – perguntou Francesca a sorrir.
  • Olá! Ora nada disso. Entra! Convenci-me de que seria novamente a Maria do 1º com problemas com o nível de som…
  • Mas que aborrecido! – interrompendo. Está sempre a queixar-se não é?
  • Quase todos os dias. Bom vamos tomar o nosso café!
  • Vamos!
  • A sala está diferente de novo? Nem acredito! Roberta, quanta necessidade de mudança das coisas!!!- exclamou.
  • Renovação!- gritou Roberta da kitchenette. Noção de renovação, minha querida. Não há um único objecto novo, mas gosto da ideia do paralelismo com a novidade.
  • Pois. – respondeu Roberta de forma desinteressada. E de resto?
  • De resto – continuou Roberta num timbre de voz alto – pareces cansada.
  • Talvez esteja, mas muito satisfeita e convicta de que estou a desenvolver uma actividade útil e construtiva.

Roberta trouxe os cafés e os biscoitos e deixou-se cair desamparadamente no sofá ao lado de Francesca.

  • Sabes, voltei a encontrar o Marcus – informou.

Francesca tirou o seu café do tabuleiro tentando recordar-se do Marcus, deu um golo no seu café, e olhou pausadamente para Roberta a mexer o açúcar na sua chávena.

  • Não sei se terá sido um acaso feliz – acabou por dizer.
  • Nem eu – respondeu Roberta. A vida é assim.
  • Estivemos duas horas a conversar. Ele estava giríssimo, tal como quando fomos ao Temper, lembras-te?
  • Nós fomos ao Temper há meses… três ou quatro, suponho. Desculpa, mas não me recordo Roberta.
  • Que desmancha prazeres! Como é possível não ter ideia?

Francesca considerou de si para si, se aquela visita a Roberta não teria sido uma perda de tempo, tempo tão precioso para a sua nova atividade. Durante alguns escassos momentos, alheou-se dos diversos pontos vermelhos da sala, da espampanante blusa de folhos em tom laranja da amiga e fez um ’tour’ rápido pelo passado recente da vivência de ambas.

Decerto o vidro transparente que começava a erguer-se entre elas, devia-se essencialmente a um nome, a alguém: Giovanni. E disso Roberta era totalmente alheia.

A convicção de Giovanni havia transformado a vida de Francesca. Uma forma de contágio, extremamente veloz, modificara o seu quotidiano e transformara-a numa pessoa muito mais consciente de um mundo que existia para além dos amigos, da casa, e do ex.namorado – que na verdade a constrangia, atalhava as suas ideias e até os seus movimentos.

Ao contrário, Roberta mantinha-se fiel ao seu ideal de vida de sempre: ter um relacionamento estável, casar-se bem, e ter um trajeto sem recurso a um emprego, numa dedicação total à família e aos filhos. E ir a festas, claro.

Francesca demitira-se sempre de qualquer opinião sobre o assunto. Por outro lado, a forma alegre e jovial da amiga tinha contribuído e muito, para aliviar os seus dias taciturnos durante o período de procura de colocação profissional. Sem ela, tudo teria sido assaz dramático, atendendo ao carácter intempestivo de Francesca.

A imagem desse tempo fê-la estremecer.

Acabou por ouvir Roberta a insistir na pergunta. Afinal só tinham decorrido alguns segundos…

  • Até parece que não ouviste nada do que eu disse…
  • Oh, claro que ouvi. Só que estava a tentar recordar-me com mais minúcia dessa época, do Marcus. Roberta, eu nunca omiti o meu desagrado pela forma como ele trata as mulheres. Nada do que ele afirma no que respeita a sentimentos ou episódios passados me parece credível. Receio pela minha amiga.
  • E ele já te deixou ‘pendurada’ uma vez num local desconhecido e sem uma explicação atempada, acrescentou.
  • A mãe estava doente, foi a explicação que ele me deu no dia seguinte.
  • Está muito bem – respondeu Francesca, pondo um ar incrédulo. Mas nós já passámos da adolescência. E depois existem sms’s que se podem enviar no momento em que surge algum imprevisto.

Foi a vez de Roberta ficar pensativa. Começou a brincar com a colher de café do pires da sua chávena de café, olhou em redor e acabou por dizer:

  • Francesca, eu sei que tens razão. E também sei que como minha amiga queres evitar-me mais uma desilusão. Mas se uma pessoa não tenta, acaba por nunca saber. Ele convidou-me para uma sessão de cinema no sábado. Eu vou aceitar. Pensei telefonar-lhe amanhã.
  • Cinema no sábado…E a sessão é numa sala pública de cinema ou em casa?
  • Ora, Francesca. Que má vontade! No cinema, claro. – afirmou contristada.
  • Está bem, óptimo – disse Francesca, não muito convencida.
  • Mudando de assunto, lembras-te daquela mesa que vimos em Roma, quando saímos de La Pizzaria? Estou a pensar comprá-la. Que te parece?
  • A mesa pequena, decorativa, ou a outra maior, tipo secretária?
  • A maior. Será que ainda está disponível pelo mesmo preço?
  • Eu estou nas imediações todos os dias. Posso perfeitamente dar um pulinho à loja ao final do dia. Queres? – prontificou-se Roberta.
  • Obrigada. Que querida! Podias verificar o preço e a medida. Ou então, combinamos e passamos lá as duas.
  • Também poderá ser. E quando?
  • Sexta-feira, a próxima sexta-feira. E em seguida experimentávamos a outra pizza.
  • Excelente. Combinado.
  • Depois ligo-te para acertarmos a hora.
  • Durante o dia de sexta-feira?
  • Sim. Se houver algum imprevisto, falaremos antes.
  • Claro!
  • Roberta, tenho de ir. Já é tarde e ainda tenho de preparar uns panfletos para amanhã.
  • Panfletos??? Tem cuidado, Isso não é nada de perigoso, pois não?
  • Não, obviamente que não. Temos de preservar o nosso planeta e lançar alertas às populações, só isso.

Francesca levantou-se e dirigiu-se à porta.

  • Até amanhã. Dorme bem – desejou Roberta.
  • Até amanhã. O café estava óptimo, obrigada. Xau.