2.1 Ambientar-se

O carreiro era estreito e térreo, e percorridos os primeiros cinquenta metros em direcção à casa, havia uma curva acentuada. A seguir, tinha-se a percepção da dimensão da parte traseira da habitação e como de um quadro se tratasse, ressaltava uma quantidade imensa de flores dispostas de uma forma pouco harmoniosa mas contrastante com o aspecto austero da construção, e que adicionava à pintura uma palete de cores até aí ausente.

O caminho de regresso, em passada calma e compassada, deu-lhe o alento que parecia perdido.

  • O local é muito agradável – pensou João Miguel, afastando qualquer outra ideia que pudesse tornar o horizonte cinzento.

Ao entrar em casa deparou-se com um rapazinho que estava a entregar umas mercearias em dois pequenos sacos e a receber o pagamento.

  • D. Margarida, obrigada. Assim foi muito melhor, as moedas dão sempre jeito. Até amanhã.
  • Adeus Nelo, espero que amanhã não falte mais nada na dispensa.
  • Vêm entregar as compras a casa? – perguntou João Miguel.
  • Ás vezes mas só aqueles produtos que ficaram esquecidos. Nós deslocamo-nos ao mercado normalmente duas vezes por mês. Qualquer coisa que nos falte, encomendamos e entregam sem custos gasóleo, se houverem entregas a outros clientes nas proximidades.
  • Mas há pessoas a morar nas imediações?
  • A noção de proximidade aqui é um pouco diferente… Depois verá!
  • Estava a pensar ir arrumar as minhas coisas e tomar um banho antes de almoço.
  • Ótima ideia. Eu subo consigo para mostrar o seu móvel, o quarto de banho e onde estão guardados os seus atoalhados. Assim fica mais à vontade.

Subiram os dois, João Miguel atrás, satisfeito por não ter de confirmar o nome da mulher de Pedro Bacéu. Que sorte ter presenciado a entrega dos produtos – pensou.

De estatura mediana, cabelos encaracolados e um ar desenvolto, Margarida não tinha um traço em particular que a distinguisse, a não ser a sua genuína simpatia. Uns olhos castanhos ávidos e umas mãos irrequietas, que não gostavam de estar desocupadas, completavam a sua figura graciosa.

  • A Margarida cuida da casa sózinha? Posso tratá-la assim, por Margarida?
  • Sim, sim, Margarida ou Guida, como preferir. Temos uma senhora que normalmente trabalha aqui três vezes por semana, mas neste momento tirou uns dias para visitar um familiar em Ponta Delgada.

E continuou:

  • O seu móvel é este, as cinco gavetas estão vazias, pode utilizá-las e o restante, blusões, blazers ou calças pode utilizar este armário – disse. Premiu uma ranhura perto do móvel e deslizou a parede falsa, que ocultava um armário espaçoso, que continha apenas um cobertor grosso dobrado, uma almofada e duas toalhas de banho.
  • Que bom aproveitamento de espaço! – exclamou João Miguel.
  • A ideia foi do Pedro. Tivemos que fazer algumas remodelações na casa, esta foi uma delas. Faltam executar umas quantas, mas o Pedro gosta de comentar essas coisas de obras. Falarão depois, com certeza. Acrescentando: tenho de descer e verificar o assado.
  • Até já! Obrigada, Margarida.