1.2 Pequeno-almoço

A casa era grande com corredores compridos e pouco iluminados. Em tempos a decoração rústica deveria ter marcado o auge do lugar, mas com o decorrer dos anos estava baça.

Sentiu prazer em descer os degraus em semicírculo que levavam ao piso inferior. Não conseguiu encontrar o quarto de banho. Depois do hall, à esquerda via-se a sala de jantar e à direita um pequeno corredor conduzia a uma área de serviço interno. Tomou essa direcção e chegou a uma cozinha enorme, com uma mesa central. Viam-se produtos hortícolas dispostos desordenadamente em cima da mesa rectangular de tábua corrida: couves, alfaces… • Bom dia João Miguel. Posso tratá-lo assim, não?

  • Claro que sim! Bom dia!

Queria lembrar-se do nome dela. Sabia que tinha nome de flor… Hortense? Não. Margarida? Talvez. Ainda se sentia aturdido.

  • Deve ter fome. Tem pão fresco naquela bancada e manteiga no frigorífico. Sumo, leite o que preferir.
  • Obrigado. Vou servir-me.
  • O almoço é à 1h30.
  • Óptimo. E o Sr. Pedro?
  • Está nos trabalhos faz horas. Aqui começamos cedo… – não quis continuar para não ser rude. Não o conhecia, pensou.
  • Vou já tentar encontrá-lo.
  • Coma descansado. Nada como a primeira refeição do dia… Também, acabou de chegar – retorquiu num tom afável.

João Miguel sorriu. Por cima do frigorífico havia um grande relógio de parede, em madeira encerada. Marcava 10h59. Finalmente tinha conseguido saber as horas. Era tarde.

Serviu-se de uma fatia de pão com manteiga e um pouco de sumo de laranja, o primeiro jarro na prateleira do frigorífico. Não viu leite, também não o procurou.

O pão era grande, caseiro. Recordou-o da sua infância e da casa da sua avó Celeste. Há anos que não comia pão caseiro, cortado à fatia.

Sentado, melancólico e alheio à senhora com nome de flor, que se atarefava junto ao lava-loiça lavando a hortaliça. Lembrou enquanto mastigava o seu pão, do seu donut de chocolate e da meia de leite tomados à pressa na pastelaria de esquina. Sempre um donut… Saboroso, interrompido com ‘sms’, chamadas e cumprimentos de outros clientes da Pastelaria Central que entravam no local e cuja presença em horário habitual transformava todos em amigos de rotina.

Tomou o pequeno-almoço em silêncio.

Do outro lado, a sua companhia começava a pensar na tristeza do rosto do João Miguel. Ora, há-de passar-lhe – concluiu, para se concentrar no seus afazeres. O almoço estava atrasado.