1.1 A mudança

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Naquela madrugada tudo estava mais calmo do que o habitual. Na rua não parecia existir o movimento caótico de viaturas, ruído de motores, buzinas e de vendedores a apregoar os seus produtos.

Durante alguns instantes, ainda aturdido pelo sono de uma noite mal dormida, distendeu-se na cama, aconchegou-se e pensou em voltar a dormir, alheando-se totalmente de tudo o que pudesse perturbar o seu descanso

Um cão começou a ladrar. Um cão, pensou… Estaria a sonhar… O sono esvaiu-se perante o latir do animal.

O despertar revelou a realidade não consciente. O local parecia-lhe desconhecido, paredes esfumadas, estaladas, esburacadas, em que cada canto pedia a mão de um pintor profissional que se esmerasse numa renovação de estrutura e cor.

O colchão era tão espartano que dormir em cima da velha alcatifa teria tido um efeito muito mais relaxante. A cama não era a sua, concluíu.

Um singular raio de sol conseguiu entrar no espaço, irradiando uma luz agradável mas parca.

Estava na ilha, pois já estava na ilha, recordou-se. A luz clareou a sua mente que durante segundos ainda teimava em perseguir um adormecer.

Levantou-se de um pulo. Não conseguia ter noção das horas, não havia relógio no quarto, não sabia do seu relógio de pulso. Olhou em redor, vasculhando todo o espaço numa observação minuciosa e esforçada. O relógio não estava ali.

A procura imóvel do objecto levou-o a sentir fome. E que fome! Melhor sair dali e tomar pequeno-almoço, pensou. De certeza que os proprietários teriam alguma comida na cozinha, considerou já mais animado.