6.5 Por outros lugares…

O sinal de chamada fez-se ouvir umas quatro vezes até que do outro lado Fabrizio atendeu.

  • Pronto!
  • Fabrizio? Fala Giovanni. Como estás?
  • Bem! Vens saber notícias dos nossos panfletos…
  • Acertaste! Decorreram dias sem qualquer novidade. A distribuição já devia estar concluída e não está sequer iniciada. Nem temos mesmo o material impresso quanto mais distribuídos…
  • Verdade – confirmou Fabrizio.
  • Eu ainda considerei enviar um mail ao Lauro mas não irei fazê-lo. Sabes como ele funciona… ainda poderemos ter de esperar mais tempo e causar-nos mais aborrecimentos.
  • Verdade mais uma vez! Só que eu não sei de mais nada. Se quiseres posso tentar ligar ao Raoul e através dele saber o ponto de situação.
  • Raoul??? Não pertence ao Movimento.
  • Não, não! Pelo menos por enquanto, mas é muito amigo de Maurizzio da fação Donnati.
  • Então liga para ele e depois diz-me alguma coisa. Mas ainda hoje! – pediu Giovanni.
  • Mesmo que não tenha resposta?
  • Sim, liga-me em todo o caso. Também preciso comunicar com Francesca que já deve estar a pensar que ou somos loucos ou totalmente desorganizados.
  • Ou as duas  coisas!
  • Pois!
  • Eu telefono-te. Até já então!
  • Até já! – despediu-se Giovanni. E desligou o telefone.

6.4 No Troley Ken

Patrick S. Dynt apressou o seu passo até ao carro. O motorista já o aguardava no local habitual, mesmo em frente à porta do edifício. Dynt entrou no veículo e indicou:

  • John para o Troley Ken, por favor.

John arrancou suavemente. O Troley Ken ficava do lado oposto da cidade, mas o trânsito estava fluido o que encurtou o tempo da viagem.

Chegados ao local, Patrick S. Dynt saíu da viatura deu boa tarde ao porteiro e entrou sem mais. Lá dentro Albert Rivera já o aguardava sentado numa das mesas do meio da sala. O local estava praticamente vazio, podiam perfeitamente ficar à vontade.

  • Olá Albert! Não esperaste muito, suponho?
  • Não, claro que não Patrick. Estou curioso pela marcação deste encontro aqui. Qual é o mistério?
  • Sem mistérios! Tudo cordato e banal. Só que como sabes gosto sempre de comentar com o meu senior partner certas opções antes de tomar uma resolução.
  • Olha o que tomamos?
  • Apetecia-me um Rembrandt com muito gelo.

Abert fez um gesto para a funcionária que acorreu à mesa.

  • Dois Rembrandt com muito gelo – pediu secamente.
  • A Dora e os miúdos ? perguntou Patrick S. Dynt.
  • Oh, estão bem. E Bertha? Cindy?
  • Ótimas! Então nesta época não têm outro desporto senão irem para a praia, a festas e fazerem compras.
  • Mulheres! O sexo feminino adora fazer compras, é consumista por natureza e creio bem que seja assim desde o início dos tempos.

A funcionária trouxe as bebidas e colocou-as amavelmente sobre a mesa, incluindo um prato de aperitivos para cada um. Dynt limitou-se a um gesto de assentimento sobre o serviço se desviar o olhar de Albert.

O diálogo solto continuou por mais uns minutos enquanto os partners saboreavam aos pouco as suas bebidas e picavam cadenciadamente os aperitivos.

  • Albert, recordas-te do processo Sims?
  • Vagamente.
  • O Belga diz-te mais alguma coisa?
  • Ah sim, claro! Como está esse assunto?
  • Para já a audiência foi adiada até ser localizado o dono da loja. Muito linear.
  • Qual loja?
  • A loja onde trabalhava Sims.
  • Entendo. Está no início…
  • Sim. O processo foi entregue a Duncan Alby e do outro lado temos Robert Middletune.
  • Que é muito bom. De qualquer forma, eu gosto do Alby.
  • Pois, mas já começou com reticências.
  • Como assim?
  • Ele pensa que há algo que não bate certo – informou S. Dynt, contendo um sorriso.
  • Ora bem… ele tem é que apurar os factos! – disse Rivera, rindo.
  • Só que ele separou-se daquela namorada, aquela brasa também advogada que agora anda com Middletune e receio que não se aguente.
  • Soluções temos?
  • Sim. Substituto: Paul Trimble.
  • Muito bem! Não será nessa escolha que precisarás da minha opinião.
  • Não de todo. Tive uma ideia: contratar um investigador para sabermos os passos de Duncan Alby. Assim teríamos uma noção mais próxima do estado do assunto.
  • E da aproximação… Não me parece mal. Já tens um nome em mente? É que também depende da pessoa escolhida.
  • Lembrei-me do Douglas Kent. Que te parece? Pode ser outro.
  • Kent… Utilizámos o seu serviço há uns tempos, há dois ou três anos atrás, correto? Fez um bom trabalho.
  • Sim. É um pouco rude, bruto.
  • Mas dedicado…
  • Isso é verdade.
  • Pomos em prática esta ideia ou será que ela é excessiva para a dimensão do assunto?

Rivera não respondeu logo. Acabou de beber o seu Rembrandt e sacudiu um pouco de aperitivo derramado sobre a mesa e só depois acabou por dizer:

  • Não temos nada a perder. Os honorários não são muito dispendiosos e jogamos, suponho pelo seguro.
  • Estamos de acordo – respondeu Dynt.
  • Caso avances, dás-me um toque?
  • Sem dúvida.
  • Gostava também que me colocasses ao corrente do processo e dos relatórios do advogado e na eventualidade de se avançar com a ideia, os de Kent. Pode ser?
  • Claro! Já pensava fazê-lo.
  • Ótimo.

Pouco depois os dois homens saíram do Troley Ken, deixando gorjeta em cima da mesa. Partiram em direção a suas casas.

6.3 Sexta à noite… com Tim

Duncan Alby acabara de jantar na companhia do seu inseparável cão Tim.

Antes de arrumar a sua cozinha, dirigiu-se ao vestíbulo e pegou na trela branca que se encontrava sempre visivelmente pendurada no pequeno cabide por detrás da porta de entrada.

Tim latiu de satisfação e pulou para Duncan, empoleirando-se nele com as duas patas da frente.

  • Para baixo Tim! Já para baixo! – ordenou Duncan Alby.

Tim obedeceu prontamente. Duncan colocou a trela no cão, abriu a porta e saíram os dois em passo calmo de passeio.

Aquela era uma das noites da volta prolongada. Tim sabia disso pelo ar descontraído do seu dono e pelo seu andar compassado.

Percorreram cinco metros da avenida sem se cruzarem com qualquer vizinho e viraram à direita em direção ao pequeno jardim.

Tim parava de quando em quando, uma das vezes para escolher o seu ‘quarto de banho’. O dono mostrava-se paciente.

A noite estava tépida  e a leve brisa noturna tornava o ambiente exterior muito agradável.

Duncan Alby respirou fundo enquanto observava uma das árvores mais frondosas do jardim, bem iluminada por um dos candeeiros de iluminação pública. Por momentos recordou-se da antiga agitação das noites de sexta-feira em companhia da sua ex. namorada, Katy Sheen. – Bela mulher, sem dúvida – pensou. Porém, não sentia a mínima saudade daquelas noites.

Uma deliciosa sensação de tranquilidade perpassou-o e sentiu-se feliz por estar a atravessar a avenida em direção ao jardim com o seu fiel amigo.

  • Esta calma bucólica tem tanto a ver comigo – reconheceu de si para si, olhando carinhosamente para Tim, que segundo depois, retribuiu-lhe o olhar.

Ao chegar à parte central do parque Duncan tirou a trela a Tim, deixando-o passear a seu gosto. Estava educado, conhecia o espaço, por isso não havia perigo.

Tim deambulou e pulou durante uns minutos e depois brincando com Duncan Alby, trouxe-lhe um pequeno tronco. O dono lançou a haste de árvore uma vezes para o animal lha trazer de novo.

De regresso a casa cruzaram-se com Mick que desafiou Duncan para um jogo de ténis no dia seguinte. Alby aceitou tendo ficado o encontro combinado no court do Cork Village pelas 10h30.

6.2 Kate Sheen

Kate Sheen era conhecida pelo seu bom gosto e o seu tato em escolher sempre a peça de vestuário adequada para todas as ocasiões, quer se tratasse de um encontro social, profissional ou mesmo simplesmente, de um jantar romântico.

Robert Middletune tinha efetuado reserva para o jantar de ambos nessa noite num dos seus restaurantes favoritos em plena downtown, um extremamente badalado, o que constituía um bom augúrio para o final do dia de sexta-feira e início de um fim-de-semana.

Kate Sheen chegou primeiro. Mostrou o seu maravilhoso sorriso ao funcionário da receção que a reconheceu e saudou, ao mesmo tempo que fazia uma pausa no atendimento de um casal jovem, a quem tentava explicar que as salas estavam cheias e que seria impossível tomar ali a refeição.

Kate foi conduzida a uma mesa muito próxima da janela, sob a faixa lateral esquerda da sala principal.

Naquela noite ela estava absolutamente deslumbrante. A sua escolha tinha recaído num vestido curto mas rodado, em azul céu, que contrastava com o tom de bronzeado castanho dourado da sua pele e com o seu cabelo louro. O crepe caía lindamente, marcando a silhoueta esbelta de Kate, a confeção era impecável e os pormenores de debruo em conjugação com o tamanho da saia impregnava-a de um ar muito feminino e jovial. Se o seu cabelo estivesse solto pareceria ainda mais teen, totalmente preso seria muito formal para a indumentária e assim, Miss Sheen tinha adotado um estilo de penteado arrojado, um meio solto, meio preso, assimétrico. Os brincos com um pendente ligeiro, também em azul exatamente da mesma cor dos sapatos e uma pequena bolsa branco-pérola completavam o conjunto.

Mesmo estando sentada numa mesa localizada fora do ângulo central da sala era impossível para qualquer outro cliente que entrasse, não reparar nela.

Robert Middletune chegou uns bons dez minutos mais tarde e ao entrar, abanou a cabeça para um dos lados na direção de Kate em sinal de aprovação.

  • Olá! Estás linda!
  • Obrigada! Assim desculpo o atraso! – respondeu Kate.
  • Ah, não a sério. Olha devo dizer-te que me apetece celebrar. Tive um dia soberbo.
  • Que bom! O meu foi também excelente.
  • Celebramos?!
  • O quê? Ao dia, tonto?
  • À vida, ao final da semana…
  • Alinho – interrompeu Kate. É uma boa ideia!

6.1 Estranha demora…

Giovanni Onetto preparava mais um set de slides para a sua aula de desfecho de semana. – Esta ideia de resumo/síntese em formato audiovisual parece estar a resultar – pensou enquanto hesitava quanto à música a inserir naquele terceiro tema.

Verificou todos os slides do início até ao tema oito, o último, e voltou ao terceiro. Optou por um som em voga com a intenção de captar a atenção dos estudantes. Em seguida ligou a apresentação dos slides e tomou nota da duração e das pausas. Voltou ao início e um por um, retificou as gralhas do texto. Finalmente de um pulo levantou-se da sua cadeira deixando a apresentação automática a arrancar. Colocou-se estrategicamente a um metro e meio do monitor a observá-la minuciosamente.

  • Ok! Terminei! – exclamou Giovanni como se estivesse a informar alguém em seu redor. A sua sala manteve-se silenciosa.

Em meia dúzia de passos ajustou-se de novo à sua cadeira, fechou o modo de apresentação e retirou a marca de ‘automático’ para a colocar em ‘manual’. Consultou o seu relógio e procurou o comando do TV e quando o encontrou premiu o botão ’ligar’.Oh nada de interesse … Situações de justiça no estrangeiro, preços médios de produtos alimentares… Tocou novamente o mesmo botão e as imagens desvaneceram-se.

A cadeira do costume parecia chamá-lo e ele acorreu para consultar o e-mail.

  • Tão estranho não haver notícias sobre a campanha – considerou. Este Donnati é demais! De fato! Tenho de dizer alguma coisa à Francesca, pelo menos que não há qualquer avanço.

Levantou-se e começou a passear-se pela sala com ambas as mãos como que meias presas nos pequenos bolsos dos desbotados jeans e um olhar vago como se o espaço fosse amplo e destituído de qualquer objeto, por minúsculo que fosse. Poucos instantes depois, agarrou o aparelho de telemóvel e fez uma chamada.