5.7 Interregno

Duncan Alby mantinha a sua expressão seráfica, impassível. Contudo debatia-se com um desconforto crescente mesclado de desconfiança.

O seu cliente parecia muito satisfeito, repentinamente liberto de todo o nervosismo e tiques. Ao deixar o edifício do tribunal, despediu-se efusivamente do advogado e desceu o lanço de escadas como se alguém o aguardasse em baixo. Alcançado o passeio virou à direita, no sentido noroeste e continuou o seu percurso a pé, desaparecendo rapidamente no meio dos transeuntes.

Alby estava convicto de que ele não teria prestado qualquer atenção à data marcada para voltarem a conversar sobre o processo. Após descer as escadas de saída, virou em sentido oposto ao do seu cliente e caminhou cerca de 100m, premiu o controle do comando e entrou na sua viatura. Chave na ignição, pasta no banco detrás… mas subitamente parou, recostando-se uns segundos no seu banco.
Insólita – eis a palavra exata para descrever a forma como tinha decorrido a audiência. Sem concluir como se teria saído, o seu pensamento focava-se num ponto apenas: algo lhe escapava naquele processo.

 

Inspirou fundo, tentou afastar as suas dúvidas, rodou a chave na ignição e a viatura arrancou. Trinta minutos mais tarde estava já a trabalhar no seu gabinete.

 

A luz intensa de um sol quente batia sobre a sua secretária mas Duncan Alby nem se apercebeu. Estava praticamente a meio do seu relatório quando se ouviu um forte bater na porta do gabinete.

  • Duncan, então como correu? – questionou Patrick S. Dynt após abrir a porta sem esperar por autorização para entrar.
  • Bem, eu penso – respondeu Alby. Estou prestes a concluir o relatório…
  • O adiamento foi ótimo para nós – afirmou perentoriamente S. Dynt.

Duncan Alby anuiu afirmativamente com a cabeça e disse :

  • Já sabe???
  • Ora, essas notícias correm céleres – declarou Dynt em tom jovial. Até amanhã!
  • Até amanhã Patrick.

5.6 À espera

Francesca aguardava a confirmação final de Giovanni para a concretização da impressão de todo o material. Embora fosse novata na organização começava a pensar que haveria algo de peculiar na noção da palavra ‘urgência’ destas pessoas.

De qualquer forma, a semana tinha chegado ao fim e na ausência de imprevistos, jantaria com Roberta. Para além disso teria de se decidir quanto à mesa a adquirir para a sua sala. Previdente, tirou as medidas do espaço disponível e apontou-as num bloco que guardou dentro da sua mala.

O despontar daquela manhã de sexta-feira estava divinal. Corria uma aragem quente, o céu estava muito azul, limpo e a tonalidade dos raios solares apontava já para um dia que se adivinhava muito quente. Durante os segundos que ficou na sua varanda a apreciar o ambiente, Francesca aproveitou para respirar muito  profundamente como se aspirasse absorver toda aquela envolvente matinal.

  • Tenho de despachar-me – pensou.

Saiu da varanda a contra gosto e dirigiu-se ao quarto. Preparou um vestido branco de Verão e umas sandálias pretas com um salto ligeiro. Em seguida tomou um duche, vestiu-se e saiu. O relógio marcava 07h23.

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Um pouco mais abaixo no mesmo edifício, Roberta muito ensonada premia o botão da sua Linea Expresso e depois a tecla verde do comando da sua televisão.

Olhou distraidamente à sua volta e ao focar-se no écran plano, surgiu-lhe uma locutora nova vestida em tons de vermelho.

Em vez de escutar as primeiras noticias do dia, Roberta Trenni observou os detalhes do vestido, dos sapatos e do colar da locutora-repórter que entrevistava alguém, um senhor, cuja face não lhe era estranha.

  • Acho que um vestido assim me ficaria muito bem. Não tenho nada naquele tom… Vou ter de procurar nas lojas do centro – disse em voz baixa, já desperta.

Voltou à sua copa para fazer o café. Tomou-o lentamente e resolveu sair para comprar os ingredientes para fazer uma sobremesa rápida.

  • Francesca e eu iremos chegar tarde. Certamente uma fatia de bolo e um chá gelado irá saber-nos muito bem.

Uma hora e meia depois voltava a sair para se dirigir desta feita, ao seu trabalho.

5.5 Bem cedo

João Miguel estava progressivamente a sentir-se melhor: igual a si próprio, pleno de energia.

Ao invés do seu habitual despertar tardio e entorpecido, acordava alegre, bem disposto e pronto para viver mais um dia na ilha.

Um processo de identificação começava a desenhar-se sem que o seu protagonista principal disso tivesse consciência.

Guida atarefava-se na cozinha quando João Miguel desceu para o pequeno almoço. Atenta como sempre, foi precisamente ela a primeira a notar a transformação e a atitude fresca do novo habitante.

  • Bom dia Guida! – saudou João Miguel
  • Viva! Dormiu bem?
  • Lindamente e acordei cheio de fome. Estava a pensar preparar umas torradas com o seu doce e uma chávena de leite.
  • Que bom! Será que pode preparar para mim também? Ainda queria acabar de arranjar estas couves.
  • Claro que sim! Como gosta das torradas? Mais tostadas, menos?
  • Mediamente tostadas com manteiga e doce.
  • Uhh!… Vou tentar encontrar o ponto médio. Espero que a torradeira ajude.
  • Ah?! Agora ninguém conta comigo…disse Pedro Bacéu ao entrar na cozinha de cabeça baixa em ar de queixa.
  • Ora essa! Desde quando? Saem já torradas em triplicado!
  • E Pedro, os últimos são os primeiros – retorquiu Guida, ao separar uma folha velha da couve para o monte do lado direito da bancada – o que pode significar que eu é que vou ter de esperar mais tempo pelas minhas torradas doces.
  • Nada disso. A minha princesa primeiro! – gracejou Pedro Bacéu.
  • Pedro, muito bem. Decididamente gostei. O que iremos fazer hoje?
  • Ajudar na apanha da fruta, certo? Penso que tínhamos comentado ontem.
  • Sim, é verdade. Mas preferi confirmar.
  • Vamos iniciar João Miguel nesta outra labuta – indicou Pedro olhando para Guida.

Guida limitou-se a piscar os dois olhos e a mostrar um sorriso rasgado num gesto muito seu.

As torradas estavam prontas e foram colocadas num prato ao centro da mesa . João Miguel dividiu o leite pelas três chávenas e a primeira refeição foi tomada num ambiente puramente descontraído.

5.4 A vários quilómetros…

João Miguel estava verdadeiramente interessado em pulverizar as macieiras como lhe tinha sido explicado. Procedeu com cuidado e alguma desenvoltura, o que agradou a Pedro Bacéu. João Miguel chegou ao ponto inicial pouco depois dele.

  • Já acabei – informou João Miguel, suspirando.
  • Cansado?
  • Não, não.
  • Ótimo. Vamos despir os fatos no caramachão e depois subimos novamente para preparar o terreno para a plantação. Uma parte. Temos ainda o dia de amanhã para acabar.
  • E hoje à tarde – lembrou João Miguel.
  • À tarde pensei que poderíamos dedicar-nos aos queijos. Sabe, hoje trocámos de funções: a Guida ordenhou as vacas e nós ficámos de preparar os queijos para dar-lhe tempo de começar a fazer umas cortinas.
  • Muito bem. – disse João Miguel. E continuaram a descer até ao caramachão.

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Giovanni gostava de sentir o ar do entardecer. Não importava a estação. A transição suave da luz do dia, crepúsculo e por fim noite, sempre exercera um fascínio muito singular, inexplicável sobre ele. Ao abrir a porta de sua casa, mais tarde do que o habitual, lembrou-se que não tinha jantar: ou telefonava a encomendar uma pizza para não de voltar a sair do bloco de apartamentos ou teria de ir até ao restaurante no final da rua, visto que mais nenhum outro estabelecimento estaria aberto. Hesitou…

  • Ah, não vou comer pizza outra vez – decidiu.

Voltou a fechar a porta e dirigiu-se ao Il Leggero.

  • Olá Luigi. Que temos de bom hoje?
  • Tudo, tudo Giovanni. Como está?
  • Bem, mas com fome.
  • Então prato de carne, certo?
  • Sim. Uma dose para levar.
  • Quer escolher ou preparo o seu preferido?
  • O meu preferido é o prato do dia hoje?

Luigi acenou com a cabeça em sinal afirmativo.

  • Ótimo! – exclamou Giovanni. É isso mesmo. Uma dose.

Luigi sorriu, tirou ma caixa de dose do armário existente na parte inferior do balcão e dirigiu-se à cozinha. Subitamente, retrocedeu e trocou a caixa de dose por duas de meia dose.

Giovanni percebeu. Olhou para a sala de refeições: estava meia vazia.

  • Bom, tomei a decisão certa quanto ao jantar.

Luigi trouxe a comida e Giovanni pagou, regressando de imediato a casa.

Ao chegar, pousou as caixas em cima do balcão da cozinha e olhou para o relógio: 21h55. Tentou arranjar espaço em cima da mesa da sala, retirando uns papéis. Ligou a televisão. Trouxe a comida ainda quente, sentou-se e começou a jantar.

O cheiro e o paladar da comida ofuscou tudo o resto e somente quando estava prestes a concluir a refeição, conseguiu centrar-se na informação noticiosa. Deslocou-se novamente à cozinha para ligar a máquina de café e no regresso, desligou o aparelho de TV e voltou-se para o computador. Foi outra vez à cozinha tirou o seu expresso e sentou-se a olhar para o monitor.

No topo de várias mensagens estava a de Fabrizio. Marcou um número de telefone e ficou a ouvir a sinalização de toque de chamada. Ao final de quatro toques, a voz do amigo surgiu do outro lado da linha.

  • Pronto!
  • Fabrizio? Giovanni! Já li a tua mensagem. Algum outro desenvolvimento?
  • Giovanni! Estava admirado por não dizeres nada .
  • Hoje cheguei muito tarde a casa.
  • Por enquanto não sei de mais nada. Fiquei surpreso com esta atitude porque o trabalho de Francesca até superou as minhas expectativas .
  • Eu já estava à espera, Fabrizio. Por outro lado, sabemos como funciona a ala Donatti… gostam de ter a última palavra.
  • Esperemos que seja apenas isso, sem mais problemas. Não aproveita nada dramatizar questões tão simples.
  • Vamos aguardar.
  • Claro, terá de ser. Se souber de mais alguma coisa, comunico-te.
  • Vamos estando em contato.
  • Xau.
  • Xau. Até amanhã! Obrigado.

E desligaram.

5.3 Audiência II

Linda sentia-se deslocada. Estava a exercer aquela função há pouco mais de dois meses e detestava. Detestava escrever! Detestava ter de tomar anotações sobre todos os diálogos em curso.

O seu trabalho já tinha sido elogiado e pese embora tivesse noção de que o executava bem, continuava a olhá-lo como assaz entediante e ultrapassado. No entanto, as circunstâncias impunham que as suas sensações não fossem mais do que meras pequenas nuvens num dia cheio de sol.

Logo que audiência começou, Linda iniciou as suas anotações ficando satisfeita pela batida ritmada com que a sessão decorria. A determinada altura escreveu:

  • “O documento que exibo, como Prova A da acusação, mostra que no ano transato, mês de Abril, a empresa em questão publicou uma listagem de movimentos assinada pelo réu no valor total de Eur 2.524,00. Até aqui não nada tenho a objetar. Mas quando nos debruçamos sobre um outro documento, datado de 26 de Abril do mesmo ano – nossa Prova B – não publicado que analisa precisamente a mesma área, o saldo é completamente diferente e muito superior – Eur 5.940,00.
  • Protesto! Esse documento nunca foi apresentado.
  • Indeferido! Aproximem-se os Senhores Advogados.”

Linda parou de escrever e esperou que os dois advogados regressassem aos seus lugares após breve troca de impressões com o Juiz.

  • Middletune, vou aceitar esse documento como prova. Espero que esteja diretamente relacionado com o caso. Seja breve na sua exposição.
  • Vou ser. Obrigado Meretíssimo.
  • Mas como é possível? Este documento não constava da compilação de documentos da acusação – retorquiu Duncan Alby.
  • Só conseguimos este documento ontem. Não houve tempo – justificou Robert Middletune.
  • Basta. Vamos prosseguir – atalhou o Juiz.

Retomada a audiência, Linda continuou a tomar notas. Pela primeira vez estava realmente atenta ao processo em si.

  • “Este documento – Prova B – tem um saldo que não confere com o anterior. Ora o réu deverá esclarecer-nos sobre essa diferença.
  • O Sr. Anthony Sims desconhece o motivo da existência dessa diferença. A empresa não é do Sr. Sims.
  • Mas existe esta diferença e não é a única. O documento foi assinado pelo Sr. Sims. O dono não pode esclarecer dado que desapareceu há uma semana. Assim, o seu cliente é a única pessoa que poderá explicar a diferença entre os dois documentos.
  • Insisto que apenas outra ou outras pessoas da empresa que não o meu cliente poderão esclarecer esse e outros dados.
  • Convém relembrar que essa mesma firma solicitou auxílio pouco depois da data mencionada, devido a uma situação financeira catastrófica.
  • Protesto. Não se enquadra no assunto que estamos a tratar.
  • Indeferido.
  • Muito pelo contrário, a questão está totalmente relacionada. E o documento foi publicado pelo seu cliente.
  • Sim. Com autorização! – argumentou Alby. E continuou: A pessoa a quem deverá colocar essa questão não está presente. Assim…
  • Mais calma, Senhores Advogados – avisou o Juiz.
  • Eminência, gostaria de continuar – disse Middletune.”
Subitamente, ouviu-se o martelo.
  • “Senhores – interrompeu o Juiz Jeffrey N. Stunt – neste momento a minha decisão está tomada. Este processo será interrompido por tempo indeterminado até ser localizado o dono da Precious. Após a sua localização, a acusação terá uma semana para informar por escrito este Tribunal.
  • Uma semana é muito pouco tempo, Eminência.
  • Quinze dias, então. A audiência está encerrada.”

Linda parou de escrever. Ouviu-se de novo o martelo.

5.2 Contatos

Roberta Trenni estava a concluir a limpeza da sua sala, cumprindo fielmente a sua rotina de quinta-feira à tarde, quando o seu telemóvel tocou.

Uma pessoa quando está a tentar despachar-se, o telefone decide sempre tocar – pensou. Quem será?

Largou o pano de limpeza próximo da janela e correu para o hall de entrada. Ficou admirada a olhar para o móvel. O aparelho não estava ali.

Onde teria eu deixado o telemóvel? Tentou recordar-se. Talvez estivesse ainda na mala… Voltou à sala e localizou a bolsa. O telemóvel também não estava na mala.

Bom, logo aparecerá. Não deve ser urgente, já deixou de tocar.

E atravessou a sala até chegar à segunda janela. Agarrou o pano e nesse instante, o aparelho fez-se ouvir de novo.

Ok! Já percebi. Está na kitchenette.

Pousou o pano e acelerou o passo até ao compartimento. O telemóvel tocava junto ao frasco do arroz em cima da pedra cinza do balcão da exígua cozinha. Roberta atendeu.

  • Pronto! – disse.
  • Olá Roberta. Como estás?
  • Oh!… Que surpresa. Não é o teu número.
  • Não, estou sem saldo e pedi o telemóvel a um amigo. Vou ser breve. Não consegui bilhetes para o filme no próximo sábado. Mas podemos combinar uma sessão de cinema em minha casa. Que te parece?

Roberta ficou extática.

  • Roberta? Alô? – exclamou Marcus do outro lado da linha.
  • Sim, desculpa, deixei de ouvir – apressou-se a dizer. É que eu também tinha pensado em telefonar-te hoje à noite para desmarcar. Tenho um familiar muito doente. Compramos os bilhetes para o outro sábado. Pode ser?
  • Claro! Fica para a outra semana. Vou adquirir os bilhetes. Xau! – disse Marcus, já com um timbre de voz diferente.
  • Xau – despediu-se Roberta, desligando em seguida a chamada.

E pensou em Francesca.

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Ao chegar a casa no final de um dia de trabalho Fabrízio dirigia-se à cozinha, dava um beijo à namorada que habitualmente preparava a refeição para ambos, abria uma garrafa de água gaseificada e enquanto beberricava a água diretamente da pequena garrafa, entabulava conversa com Luciana.

Em seguida, dirigia-se à sala e ligava o computador para verificar as suas mensagens e o círculo do Movimento. Viu os panfletos partilhados por Giovanni e gostou. Preparava-se para transmitir isso mesmo ao amigo quando se apercebeu de uma notificação de entrada de nova mensagem, esta de um outro membro do Movimento que dizia apenas: Já viste os dísticos de Francesca? Lauro detestou!

Fabrízio abriu as mensagens privadas: Gostei do trabalho partilhado – escreveu – mas vamos ter problemas com Lauro! Liga-me Giovanni. Até logo!

Colocou a máquina em stand-by e foi pôr a mesa para o jantar.

5.1 Pulverização

O dia estava magnífico, o céu azul embora uma brisa fresca e húmida tendesse a perpassar qualquer peça de lã mais fina.

Vestiram as parkas que se encontravam à sua espera no bengaleiro do vestíbulo e saíram em direção ao campo.

Pedro Bacéu ligeiramente à frente começou a apressar o passo e João Miguel atrás, a sentir o aroma das flores da entrada.

  • Aqui sente-se mais este vento do que na zona das árvores, dado estarem num terreno mais baixo. De qualquer forma, vamos preparar a pulverização no caramachão, levamos os fato vestidos e quando chegarmos ao terreno logo veremos se as condições são propícias ao tratamento ou não.
  • De acordo – respondeu João Miguel, que o seguia pelo carreiro como uma sombra.

Chegaram ao caramachão, de média dimensão, construído em madeira e cuja cobertura em placas de lusalite era notoriamente frágil para as condições climatéricas da zona. Pelo menos assim pensou João Miguel, embora não verbalizasse qualquer opinião.

Pedro Bacéu deu duas voltas com a chave que retirou do seu bolso e a porta do armazém abriu-se.

Para surpresa de João Miguel, o interior contrastava com o exterior da construção. O local, iluminado com lâmpadas fluorescentes suspensas estava convenientemente dividido por oito áreas, quatro de cada lado de um corredor central largo. Cada uma dessas áreas tinha várias prateleiras de dexion.

  • Os produtos e o restante que precisamos encontram-se na terceira área à esquerda-informou Pedro Bacéu enquanto caminhava já pelo corredor.
  • Mas isto está muito organizado!
  • Agora está! Nem imagina o estado deste caramachão quando adquirimos a propriedade. Tudo isto foi ideia nossa, adquirido e organizado por mim e pela Guida, com a ajuda do Manuel Serra e dum vizinho – que ainda não conhece – o Leopoldo, Leo como o tratamos, dono do terreno a seguir a este.
  • Quem vê o caramachão do lado de fora não idealiza a arrumação do interior. Um verdadeiro armazém – acabou por dizer João Miguel. E atreveu-se a perguntar: – O telhado, a cobertura é segura? Não há o risco de voar em caso de vento forte?
  • Não ! Mantivemos as placas existentes porque era muito caro comprar placas novas para toda a área mas fizemos obras para ficarem devidamente acondicionadas. Aqui não entra água nem vento. Vê ali?
  • O quê? – perguntou João Miguel.
  • Antes das placas de lusalite ondulado há uma placa isolante em toda a extensão onde assentam as outras, i. é, o que se vê do lado de fora.
  • Ah! Sim, estou a compreender. Engenhoso!
  • Teve de ser! Este local dá muito jeito e estava totalmente subutilizado. Bom, aqui temos os manuais na prateleira do meio  – indicou Pedro ao chegarem à terceira divisória. Vamos fazer uma consulta rápida para confirmar a quantidade dos químico a aplicar e a duração da sua atuação.

João Miguel debruçou-se sobre Pedro Bacéu para ler melhor as instruções do livro.

  • Ora temos que para 1 litro de água deveremos misturar 10 mg de Flint… E 16 ml de Garbol.
  • Estes tratamentos são para as macieiras – constatou João Miguel.
  • Sim,  pedrado e cochonilha! Temos de preparar cerca de 6 litros – 3 litros para cada um dos suportes por produto que transportaremos tipo mochila. os suportes estão deste lado, ali em cima. Vê?
  • Prático, sim.
  • Quantidades…
  • Para três litros por suporte serão 3 medidas de cada produto, na marca 10 mg para um e na de cerca de 15 ml para o outro. É fácil – disse João Miguel.
  • Eu costumo fazer doutra maneira, mas o João Miguel simplificou a operação. Vou reverificar se deverão ser 3 litros de cada. E voltou a pegar no livrinho. O outro ficou a aguardar pela conclusão agachado junto aos dois suportes, segurando um de cada lado na vertical para não tombarem.
  • Sim, confirma-se. Agora, tenho aqui um garrafão de água vazio que servirá de medida.

Os preparados foram elaborados. Os suportes devidamente fechados ficaram encostados às prateleiras enquanto os dois homens vestiam os fatos, tipo gabardina, com fecho nas costas.

Pedro Bacéu entregou uma máscara a João Miguel e tirou uma para si também. Colocaram os recipientes nas costas. Pedro apagou as luzes e fechou o caramachão.

  • Agora seguimos em frente por este outro carreiro do lado esquerdo. Subimos um pouco até ao topo e depois descemos e viramos à direita.

Atravessaram o terreno da plantação de cebolas à esquerda. À direita, a área de cultivo de cenouras e continuaram até à zona das árvores de fruto.

  • Não está muito vento, pois não? – tentou confirmar Pedro Bacéu.
  • Não, aqui não se sente praticamente nem uma aragem.
  • Vamos aplicar o tratamento. Este suporte metálico enrosca na extremidade do tubo e apertamos esta patilha aqui atrás para sair o produto. Assim vê?
  • Muito bem – disse João Miguel. Atarrachou a parte metálica e experimentou.
  • Colocamos a máscara e evitamos pulverizar muito na vertical para não ficarmos cobertos de químico, ok?
  • Vou tentar. Separamo-nos?

As árvores estavam dispostas em quatro fileiras e mostravam ter distâncias certas entre elas.

  • Sim. Cada um para o seu lado – exterior – e encontramo-nos de novo aqui ao centro quando concluirmos. Eu vou pelo esquerdo. Vamos a isto!
  • Certo – deixou sair João Miguel.