4.4 Audiência I

Duncan Alby tentou contatar o seu investigador principal antes de entrar na audiência. Não conseguiu ser atendido. Caso houvesse um dado novo, relevante, ele ter-me-ia contatado – pensou, sem reticências.

Ao entrar no amplo hall circular de acesso à sala de audiências secundária – cuja porta evidenciava uma placa metálica dourada com letra preta de tamanho mediano gravada em baixo relevo indicando, simplesmente A-1 – viu que o Belga aguardava de pé junto à janela lateral esquerda com vista panorâmica para a avenida principal, numa atitude perfeitamente extática. Não notou a sua chegada.

Estranho, muito estranho este sujeito – considerou Duncan pela centésima vez. Oscila entre um nervosismo desmesurado e uma calma apática.

  • Bom dia, Anthony.
  • Ah, bom dia. Já chegou a hora?
  • Faltam cerca 12 minutos, mas já poderemos entrar na sala como é óbvio. Está mais calmo?
  • Sim, sim. Entramos?
  • Recorda-se da forma como acordámos que responderia às prováveis questões que possam vir a ser-lhe colocadas?
  • Creio que sim – balbuciou.
  • Temos uns minutos para rever os tópicos principais.
  • Não é necessário. Estou mais calmo – respondeu Anthony Sims.
  • Excelente! – afirmou Duncan. Vamos entrar então.

Dirigiram-se à porta da sala de audiências. Duncan Alby quebrou o silêncio e anunciou:

  • É aqui – ao mesmo tempo que abria a porta da sala, com a intenção que Anthony Sims entrasse à sua frente.

Nesse preciso instante sentiu uma palmada nas costas. Voltou-se sobre a sua direita e deu de caras com Robert Middletune.

  • Olá, Robert! – e estendeu a mão para cumprimentá-lo enquanto segurava a porta com o seu corpo para impedir que se fechasse.
  • Caro Duncan! Preparado? – ao mesmo tempo que o cumprimentava.
Duncan Alby limitou-se a inclinar a cabeça para um dos lados, num jeito muito particular, muito seu.
  • Saberemos daqui a poucos instantes! – rematou Robert Middletune num tom jovial.
  • Quem é? sussurrou o Belga.
  • O advogado da acusação.
  • Conhecem-se?
  • Sim! E continuou para atalhar assunto: – Vamos ficar sentados à frente deste lado, apontando ligeiramente para a esquerda.

Robert Middletune aguardou o seu cliente de pé junto ao dístico metálico e pouco depois os dois tomaram os lugares paralelos aos dos oponentes à direita, na área central da A-1.

Às 11h30 em ponto, o Juiz Jeffrey N. Stunt entrou na sala. Ouviu-se o som do martelo a bater na mesa frontal. A audiência tinha começado.

4.3 Lauro Donnati

Lauro Donnati preparava a aula dessa tarde. Ao receber a notificação de Giovanni, resolveu ignorá-la para permanecer concentrado na criação de um dos slides dum conjunto de oito sobre o regime feudal na Idade Média. Aquele era o sexto.

Percorreu o Compêndio I e depois folheou o Compêndio II, à procura de imagens e de inspiração para os restantes.

Como historiador, Lauro Donnati idealizava poder dedicar-se à investigação. Licenciado há cerca de dois anos e 10 meses tinha-se visto obrigado a dar aulas, nem sempre nas melhores condições.

No ano corrente tinha sido colocado como professor substituto numa Escola Secundária a cerca de 40km de distância da sua residência. Em princípio, no curto espaço de 3 meses ficaria novamente desocupado com a chegada da professora da disciplina da sua licença de parto. Nessa altura, tencionava dedicar-se novamente a tempo inteiro a explicações e, ao Movimento, claro.

A sua principal característica não era a escrita, tão pouco a criatividade, mas a sua particular aptidão para a oratória. Adorava multidões e falar em público.

A sua adesão ao Movimento tinha ocorrido pouco tempo depois da sua criação, podendo quase considerar-se como um dos impulsionadores da sua expansão dado o número de membros angariados entre amigos, conhecidos e alunos.

Esse conjunto de seguidores permanecia fiel ao seu mentor – em termos pessoais – o que abrangia aspetos muito mais vastos do que a defesa ecológica do Planeta ou do próprio Movimento.

Após finalizar o oitavo slide, Lauro abriu a área de partilha do Movimento. Leu primeiro a notificação de Giovanni. Depois analisou os panfletos, um por um. Hesitou… Ótima conceção! – pensou.

Durante alguns segundos parou como que a mirar apenas o monitor e em seguida foi buscar uma garrafa de água mineral à copa. Sentou-se novamente ao écran a beber a sua água, em goles pequenos, compassados, pensativos…

  • Isto não vai ficar assim!!! Que ‘cachopita’ convencida!

E esfalfou-se no envio de mensagens privadas – para 69 destinatários no total – no espaço de escassos minutos, saindo de casa em seguida, rumo à escola.

4.2 Panfletos

Giovanni Onetto estava encantado a olhar para as imagens enviadas por e-mail.

  • Cores acertadas – pensou.  Tenho de verificar os tamanhos e imprimir.

Enviou os ficheiros para a impressora, enquanto que se certificava sobre os suportes.

  • Bem, não irei dizer nada – olhando para os esboços com alguma incerteza – o Fabrízzio irá visualizá-los no circulo e logo nos dará um parecer mais expedito – decidiu.

Contornou a mesa de centro da sala, quase transformada em pequeno centro de operações e alcançou a impressora laserjet. Não fosse o aparador de 1,80m em nogueira herdado da sua avó paterna cheio de loiça de porcelana de época, que se impunha no centro da parede lateral direita em relação à porta principal de entrada na divisão em tudo o mais, desde o sofá junto à mesa, à estante e até mesmo a certas partes da superfície do chão, se vislumbravam papéis, revistas e croquis espalhados numa aparente mistura desordenada, mas verdadeiramente acessíveis a uma consulta rápida ou a um reavivar de planos.

Giovanni observou as folhas impressas, uma por uma, e depois colocou-as à distância, em diferentes mas equidistantes pontos do compartimento. Deslocou-se seguidamente até ao centro da sala e rodou lenta e pausadamente até chegar à posição inicial.

  • Fantástico! – pensou ao apertar alternadamente cada uma das mãos. Parece que cada um dos panfletos tem o impacto suficiente, quer na mensagem, quer graficamente, até mesmo à distância. E concluiu de si para si – Sem serem demasiado agressivos no tom e nas frases – congeminou sorrindo. Aliás, o verdadeiro ‘senão’ poderá vir a ser esse – a menor agressividade! A ala Donnati não vai gostar… Ora veremos!

Correu para o computador. Rapidamente enviou um ‘sms’ de aprovação para Francesca e ele próprio partilhou os documentos com a nota “Aprovado” “Sujeito a comentários”. A seguir colocou a máquina em ‘stand-by’ e saiu do apartamento.

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Francesca Caprezzi ouviu a sinalização de entrada de ‘sms’ no seu telemóvel ao longe. Estava a atender uma cliente, uma senhora na faixa dos trinta de discurso fluído, muito perfumada e convenientemente vestida. Prosseguiu com o atendimento, prestando esclarecimento a todas as questões da cliente o que demorou cerca de 15 minutos. No final, lamentou de si para si, que a senhora tenha saído da loja sem realizar qualquer compra.

Acorreu ao seu telemóvel e sorriu de satisfação ao ler a mensagem de Giovanni.

Na sua inocência de recém-chegada ao Movimento, assumiu que o seu trabalho estaria concluído. Engano de principiante: apenas tinha começado.

4.1 As árvores

O dia tinha decorrido de uma forma surpreendente para João Miguel. Ao recolher ao seu quarto reviu mentalmente os locais visitados e a simpatia das pessoas. E quanta calma! – considerou de si para si. A imagem do oceano a embater teimosamente nas rochas da baía ajudou-o a adormecer em escassos segundos.

O despertador tocou pontualmente, às 06h30. Estonteado, trancou a patilha do relógio e olhou para o teto. Não sabia onde estava… Optou por voltar-se na cama e aconchegar o cobertor. Subitamente levantou-se.

Ainda ensonado, dirigiu-se ao quarto de banho. Teria de tomar um duche para acordar. Pedro Bacéu gostava de começar cedo e havia de cuidar do trabalho no campo. Aprender – pensou. Reaprender a viver. Volvidos 10 minutos já estava no piso inferior.

  • Bom dia, Margarida.
  • Olá  João Miguel. Tem aqui pão, leite, manteiga. Gosta de torradas?
  • Imenso. Mas não agora. Vou tomar um café com um biscoito.
  • Só isso?
  • Sim, Guida, ainda é muito cedo…
  • João Miguel, bom dia. Caramba, madrugou homem! – exclamou Pedro Bacéu ao entrar na sala.
  • Bom dia Pedro. Tenho de começar a aprender. Quanto mais cedo, melhor!
  • Vamos a isso. Mas primeiro, o pequeno-almoço. Estou cheio de fome.

Sabe, estou a pensar que se não estiver vento ou uma aragem forte, iremos iniciar o trabalho numa área mais pequena com cerca de 800m2, onde temos algumas árvores de fruto, só para consumo interno.

  • É necessário apanhar alguma fruta?
  • Não, não é isso. Ele não entende mesmo nada de agricultura – pensou Pedro Bacéu enquanto tomava mais um gole de café com leite. E continuou: há que prevenir os efeitos nocivos da mosca, por isso tem de se pulverizar as árvores com os produtos químicos adequados para que a fruta se desenvolva sem bicho, sã.
  • Ah, sim?! E tem os produtos, suponho?
  • Claro. Lembra-se do caramachão por onde passámos no regresso do passeio de ontem?

João Miguel anuiu com um aceno de cabeça.

  • Bom, esse caramachão dista uns bons metros do terreno mas não temos outro local onde guardar os produtos. Aí estão os químicos, o fato próprio, as luvas e o pulverizador. E os manuais sobre os produtos, épocas de aplicação, etc. O João Miguel sabe que até há bem pouco tempo eu não tinha praticamente qualquer conhecimento nesta área – afirmou como incentivo ao interlocutor.  Recorro frequentemente a manuais. E ao Manuel Serra.
  • E a outros – acrescentou Margarida – tomando um golo de leite. A propósito, no ano passado essas árvores deram tanta fruta que decidimos que seria melhor confecionar doce para venda. Eu nunca tinha feito uma compota na minha vida. Valeu-nos a receita e a ajuda de Brígida, a mulher do Manuel Serra. E da mãe do Pedro. Em abono da verdade, a minha mãe nunca foi grande cozinheira, muito menos doceira, não seria lógico recorrer a ela.
  • Pois… E comercializaram o doce? Teve boa venda? – perguntou João Miguel.
  • Teve, mas não por aqui, onde todas as pessoas fazem o mesmo que nós… Até bem melhor.  E prosseguiu: olhe através de um contato do Carlos Maria, colocámos a compota à venda numa loja em Lisboa. Este género de lojas/mercados têm um conceito giro, algo novo, pelo menos para mim. Mas falaremos disso com detalhe, mais tarde. Temos de ir para o campo.
  • Eu já acabei. Vamos!