3.7 Anthony Sims

Anthony Sims (o Belga) era um homem baixo e ligeiramente curvado. Moreno, o único traço que poderia identificá-lo seria o seu imenso cabelo preto, de um tom demasiadamente focado para a sua real idade.

Uma primeira impressão levaria qualquer um a pensar que se tratava de um conversador incansável, dada a sua propensão para o diálogo de circunstância, acerca de pequenos ‘nadas’ do quotidiano.

Duncan Alby tinha contudo ficado desde logo alerta e acertara. Assim que o tema era mais sério mesmo que não respeitasse ao processo, Anthony esquivava-se, brincava, mudava tacitamente de assunto quase parecendo assolado de um peculiar desinteresse, de um lapso de memória ou de uma imensa distração.

Os parcos pormenores do caso tinham sido conseguidos à custa de horas a fio de conversa e incontáveis insistências e ainda assim, Duncan recusava-se a acreditar que todos os pontos relevantes estivessem em seu poder.

Qualquer questão pertinente sobre o negócio do Belga ou uma questão mais direta sobre a contabilidade mensal apenas conduziam a um disperso rol de acontecimentos aparentemente desconexos com episódicas alusões a pessoas, das quais não havia certezas de nomes e tão pouco da sua atual situação ou localização.

Tempo. O tempo tratará de me fazer vislumbrar um rumo. – pensava Duncan Alby. A investigação irá prosseguir e surgirão certamente novos dados.

Enquanto isso, o Belga, permaneceria no seu aparente trato descontraído – polvilhado de momentos de um nervosismo exagerado – e com as suas desconcertantes frases episódicas.

Agora havia que ultimar elementos para a audiência.

3.6 Aprovação

Giovanni estava a acabar de se vestir quando o seu computador começou a sinalizar a entrada de uma chamada. Saíu do quarto rapidamente, dirigiu-se ao computador e colocou os auscultadores. Quando premiu a tecla para atender, já a chamada tinha caído.

  • Francesca – disse de si para si.

Num segundo, procurou a sinalética para lhe ligar. Simultaneamente viu que estava a chegar um ‘sms’ que dizia “Giovanni se estás em casa, liga-me.”

  • Já estou a ligar – acabou por deixar soltar quase em surdina.

Francesca atendeu.

  • Pronto!
  • Giovanni! Querias falar comigo?
  • Sim! Já viste os panfletos? Gostaste ou não? – perguntou Francesca, sem esperar pela primeira resposta.
  • Não, não vi. Estão prontos?
  • Bem eu enviei-te um e-mail com aquilo que elaborei. Não divulguei sem primeiro tomar a tua opinião.
  • Estão colocados no nosso circulo? Vou ver.
  • Giovanni, não me estás a ouvir. Enviei tudo para o teu e-mail. Se estiveres de acordo depois disponibilizamos para divulgação.
  • Muito bem. Que gesto tão simpático! Vou examinar e volto a ligar-te.
  • Liga-me se houver alteração. Se estiveres de acordo, envia-me um ‘sms’. Estou com imenso trabalho hoje… Certo?
  • Certo! Chiau. – despediu-se Giovanni. E desligou.

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O miradouro estava um pouco escondido, mas Pedro Bacéu tinha razão: a vista era magnífica.

A tarde estava a findar e o brilho do sol poente a bater na água, ao longe, deixava um rasto luminoso que parecia apontar na sua direção.

O declive das terras, acentuado, mesmo escarpado à esquerda e verdejante à direita apresentava um contraste digno de um qualquer fotografo ávido de paisagens únicas.

Pedro esforçava-se por esmiufrar informação sobre a zona e sobre a ilha. Quando finalmente ficou em silêncio, João Miguel suspirou devagarinho e apreciou a beleza do local. Subitamente uma agradável mas estranha sensação de pertença acabou por trazer uma inesperada expressão de leveza ao seu rosto. Pedro Bacéu notou.

  • O efeito da paisagem funcionou. É um bom sinal – pensou.

3.5 Patrick S. Dynt

Bateu à porta antes de entrar. Ouviu-se uma voz: – Entre.

Abriu a porta suavemente e tentou localizar Patrick S. Dynt. Estava junto à janela, voltado na sua direção.

  • Bom dia, Patrick.
  • Olá Duncan. Muito pontual. – exclamou Patrick S. Dynt, sorrindo.                     Sabe que gosto de ir direto ao assunto. Como estamos com o caso do Belga?
  • Tivemos alguns progressos. Localizámos algumas provas e testemunhas que podem abonar a nosso favor. A investigação ainda prossegue, claro.
  • Mas sinto alguma insegurança na sua voz, não é verdade?
  • Insegurança?! Bom, não é bem isso. A questão relaciona-se com a ausência de uma base sólida no caso. Algo não bate certo. É instintivo, nada que se tenha conseguido atingir fatualmente.
  • Intuitivo, intuição. Nem sei que lhe responda – retorquiu Patrick S. Dynt. Os processos nesta firma não se conduzem, nem têm um percurso baseado na intuição dos nossos advogados.

Parou por segundos, olhando fixamente a secretária de madeira escura. Depois fitando Duncan, questionou:

  • Não acredita no Belga, é isso?
  • Também não é bem isso… Só que temo que esteja a omitir dados importantes. O seu nervosismo é absolutamente desconcertante. Sabe, para uma pessoa sem nada a temer e na posição dele, tamanha pressão nervosa é muito estranha. A menos que ele duvide da competência dos meus préstimos.
  • Duncan, isso não será também insegurança sua perante o seu opositor, Robert Middletune?
  • De todo!

Patrick S. Dynt levantou-se da sua cadeira e deu dois ou três passos até atingir uma estatueta próxima do sofá maior, na zona central do gabinete. E continuou num timbre de voz calmo:

  • Estou a tentar desmistificar o assunto – esclareceu. Considera que o Belga poderá estar a omitir fatos, mais concretamente falemos claro, números. Tentou verificar todas as suas ligações? Estará a ser pressionado por terceiros?
  • Tive em consideração esse aspeto, mas a audiência preliminar foi marcada com um intervalo de tempo demasiadamente curto. Não tivemos possibilidade de aprofundar essa questão – explicou Duncan Alby.

E acrescentou:

  • Mesmo sem provas que possam cimentar as minhas impressões este é dos tais processos que têm tudo para poderem vir a causar-nos problemas. É demasiado simplista, por isso não bate certo.
  • Duncan as suas dúvidas podem ser totalmente infundadas.
  • Espero sinceramente que sim.                                                                            Não querendo tomar-lhe muito tempo, repare: num assunto que aparentemente poderá ter uma solução fácil, por quê recorrer a uma das mais prestigiadas firmas de advogados da cidade? Pagar honorários altíssimos quando qualquer advogado mediano, a trabalhar sozinho poderia defendê-lo? Depois a marcação muito súbita da audiência, a escolha de um dos melhores advogados na barra por parte da acusação. Eu sei que são apenas detalhes, mas para mim…
  • Algo não bate certo! – rematou Patrick S. Dynt. É a nossa reputação que também está em jogo… Já ponderou partir-se para um acordo?
  • Já, mas o Belga mostra-se muito reticente, mesmo relutante. Não obstante, não se abre, invoca apenas que necessita ser credível. É um sujeito muito peculiar.
  • Prefere a entrega do processo a outro advogado? – indagou S. Dynt, pausadamente. – Paul Trimble, por exemplo?
  • Não, não é isso. Eu estou empenhado neste caso.
  • Só que tem dúvidas… – disse Patrick S. Dynt, distraídamente como se falasse para um júnior.

Duncan Alby compreendeu que o diálogo estava praticamente terminado. Que perda de tempo – pensou.

  • Duncan, vamos levar por diante o processo. Caso se venha a encontrar algum obstáculo, informe-me de imediato.
  • Sem dúvida. Obrigado.

E saíu.

3.4 Início

Giovanni estava agitado. Duas horas a enviar e a receber mensagens tinham conseguido deixá-lo a pensar em vários temas ao mesmo tempo e a sua mente teimava em não parar.

  • Vou deitar-me. É muito tarde – pensou.

Contudo, volvidos dez minutos levantou-se, foi à sala e começou a escrever umas notas no seu bloco de apontamentos, que mais se assemelhava a uma sebenta.

Verificou as horas. Eram duas e meia. Pousou o bloco e decidiu voltar para a cama.

  • Que estranho Francesca não ter contribuído para a troca de ideias desta noite… Tenho de ligar-lhe amanhã. Ou enviar um ‘sms’. E adormeceu.

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Francesca Caprezzi estava embrenhada na criação dos panfletos.

A criação do texto tinha vindo a confirmar-se a parte mais fácil do trabalho. A conjugação de ideias de Giovanni e de Lauro Donnati haviam tornado a sua execução muito leve, aliás tal como pensara que iria suceder desde o início.

A questão complicou-se com a escolha de imagens e de cor. Percorria-a a intenção de criar uns folhetos apelativos mas sem o exagero que naturalmente impregnava tudo o que circulava veiculado por aquele género de iniciativas e movimentos ecológicos.

  • É impensável não utilizar a cor verde. O verde é obrigatório. Verde relva? Não é muito escuro. Aplico o intermédio…

Os três géneros de panfletos ficaram concluídos a altas horas da madrugada. Francesca não se incomodou. A versão online ficaria para o dia seguinte. Ao deitar-se foi inundada por uma sensação de realização.

3.3 Pelas redondezas

Soprava uma aragem quente que acariciava os rostos, quando João Miguel e Pedro Bacéu saíram de casa em direção ao jipe.

O aroma das flores pairava no ar e continuava a surpreender João Miguel para quem todo o ambiente era uma novidade que aturdia o seu subconsciente citadino.

A expressão carrancuda de Pedro contrastava com uma faceta comunicativa e muito cativante.

  • Não estou a conseguir acompanhar toda esta informação, mas começo a simpatizar com ele – pensou João. Está a tentar ambientar-me…

O trilho desde a saída da casa até à estrada principal de terra batida foi feito devagar e com muitos solavancos.

A povoação mais próxima encontrava-se a cerca de 20 minutos. Pedro mostrou uma condução desenvolta mas calma, e durante todo o percurso mostrou-se mais concentrado na conversa  e em João Miguel do que propriamente na chegada à cidade.

  • É tão reservado, que mais parece querer esconder-se. Ou então está traumatizado… Caramba, não consigo entender nada deste tipo – congeminou Pedro Bacéu de si para si.

Depois recordou-se das frases da sua Guida: “Nem tudo o que parece, realmente é, Pedro. As conclusões são bem melhores quando fortificadas pelo tempo.”

E prosseguiu com a sua descrição da complicação com o arranjo do motor do poço. João Miguel escutava-o atentamente.

Estacionaram no centro da vila, numa praça rodeada de edifícios municipais.

Pedro Bacéu apressou-se a sair do carro e a indicar uma das ruas que desembocava naquele largo. João Miguel seguiu o seu exemplo, saindo do jipe.

  • Vê aquela rua? – perguntou Pedro. João Miguel anuiu com um aceno de cabeça.
  •  Ali encontramos praticamente tudo o que precisamos para o nosso dia-a-dia: sementes de cultivo , ferramentas, peças para arranjo de máquinas, lojas de fruta… um mini-mercado, padaria…
  • Tem alguma pastelaria? questionou João Miguel, interrompendo.
  • Não me diga que ficou com fome?!
  • Oh, não de forma alguma. Apenas pensei que poderíamos tomar a bica. Sabe, é a força do hábito – explicou um pouco a medo.
  • Pois, nós nunca tivemos esse costume, mas há muitas pessoas assim. Então vamos primeiro à Pastelaria Torrente, por ali à direita e depois atravessamos em sentido contrário para fazermos algumas compras.
  • Mas se lhe fizer diferença, podemos seguir já para as compras.
  • Não, esta tarde será dedicada a mostrar-lhe a zona. Esta pastelaria para onde nos dirigimos tem um fabrico excelente e a última vez que recebemos os padrinhos da Margarida, o Joaquim adorou a bica na pastelaria. Na altura também estivemos no café da terra, mas segundo ele, ou pela ausência de creme ou pelo lote, o café não era tão bom. Eu como não sou apreciador, tenho de confiar na opinião dos entendidos.
  • Então, vamos lá experimentar a bica da pastelaria!

Atravessaram a praça, contornaram um pouco à direita e entraram  numa rua algo estreita. Faltavam ainda alguns metros para chegarem ao local, quando se ouviu uma voz:

  • Bacéu, então pelo centro?

Pedro olhou à sua volta, quando de repente surgiu um homem alto a sair da porta de um prédio de dois andares, muito necessitado de pintura.

  • Manuel, eu nem o via… É verdade, estou a mostrar a cidade a João Miguel, que chegou à ilha e a nossa casa ontem.
  • Benvindo! exclamou Manuel, estendendo a mão para cumprimentar João Miguel. Vem colaborar na quinta?
  • Boa tarde. Prazer! Espero que sim – respondeu João Miguel.
  • Vamos tomar um café na Torrente. Os citadinos sentem falta da bica, sabes!?
  • Eu também vou. Como vai a plantação? E a Guida?
  • A Guida está ótima! A plantação um pouco atrasada mas se tudo correr bem, estará terminada antes das primeiras chuvas.
  • Pedro, se precisares de uma ajuda suplementar, já sabes que podes contar comigo. Ao fim-de-semana, claro.
  • Manuel, obrigado. Eu não gosto nada de pesar os outros com os meus assuntos, mas provavelmente desta vez vou ter de aceitar.
  • Então e eu? Poderei certamente trabalhar nesse cultivo… – interrompeu João Miguel.
  • E vai trabalhar. Só que até ter prática ainda vai demorar…
  • No final da semana podes contar comigo e com a Brigida. Ela poderá dar uma mãozinha à Guida  e fazer-lhe um pouco de companhia. As mulheres gostam de conversar!
  • Combinado! Aparecem sexta-feira à noite ou no sábado de manhã?

Entretanto já tinham entrado na pastelaria Torrente. As mesas dispostas em tipo L invertido estavam na sua maioria ocupadas por estudantes mas também por alguns idosos.

Ficaram ao balcão, onde o funcionário, um homem robusto e sorridente que aparentava ter entrado nos finais de uns cinquenta muito bem vividos, acabava de atender uma cliente que comprava ‘petit-fours’.

Após alguns instantes dirigiu-se aos três clientes recém-chegados.

  • Viva, boas-tardes! Que vai ser?
  • Boa tarde. Três bicas – pediu João Miguel.
  • Não, para mim não – informou Pedro Bacéu.
  • Nesse caso, são duas bicas.
  • E água, Serafim. Três copos por favor – acrescentou Manuel.

Pedro e Manuel continuaram a acertar os detalhes para o final da semana, e João Miguel alheou-se por instantes daquele diálogo. Estava algo ansioso pela bica. Olhou em redor, observando o local e constatou que apesar da falta de tato na decoração, respirava-se uma atmosfera acolhedora.

As bicas foram servidas. O café era excelente. João Miguel sentiu-se reconfortado, e voltando-se novamente para as mesas considerou que talvez fossem os estudantes a converter o espaço, impregnando-o com um lastro de alegria. Ah, a juventude! – pensou.

  • João Miguel, que tal a bica?
  • Muito boa, forte, tal como eu gosto. – respondeu.
  • Eu não lhe disse?! Já sabe, quando quiser dá aqui um pulinho.
  • Ou quando puder, Pedro.
  • Se seguir o ritmo da Guida e do Pedro só voltará a tomar um café daqui a um mês – afirmou Manuel, voltando-se para João Miguel. Esses dois estão sempre a cuidar da vida.
  • Ora Manuel, estamos ainda de início, temos de nos esforçar e muito que aprender.
  • Também é verdade! anuiu Manuel. Que tal lhe pareceu a propriedade?
  • É uma boa casa. Não conheci ainda toda a área de terreno, mas pareceu-me muito extensa – respondeu João Miguel.
  • Chegou quando? – tentou confirmar Manuel.
  • Ontem à noite, muito tarde.
  • Ah, pois… – disse Manuel pondo um ar compreensivo.
  • Hoje ainda iremos dar uma volta pelos terrenos. É melhor irmos andando, temos de passar pela loja – atalhou Pedro Bacéu. E voltou-se para João Miguel. E quero também mostrar-lhe o resto da vila e o miradouro.
  • Eu também tenho de ir – disse Manuel Serra. Até sábado.

João Miguel fez questão em pagar os cafés e saíram os três da pastelaria. Tomaram direções distintas: Manuel seguiu em frente. João Miguel e Pedro Bacéu retrocederam até à praça, atravessaram-na e dirigiram-se à rua de “todas as compras”.

João Miguel lembrou-se da extensão de fio que teria de adquirir para a ligação do portátil e afinal, até a extensão poderia ser comprada nessa mesma rua.

Por ali todas as pessoas se cumprimentavam e conversavam sobre tudo e sobre nada.

No meio de muita conversa entre Pedro Bacéu e os comerciantes e demais clientes do comércio local, acabaram por regressar ao jipe com dois sacos de compras, a extensão de fio e uma tira de papel com a confirmação de entrega dos produtos agrícolas no início da manhã do dia seguinte.

  • Vou mostrar-lhe o miradouro, penso que irá gostar – disse Pedro Bacéu.

E saíram da vila contornando a praça, rumo a norte.

3.2 O processo

Duncan acordava sempre muito cedo. Era um hábito crónico, e mesmo quando não era necessário levantava-se ao romper do dia.

Durante a semana, gostava de ter muito tempo para todos os pormenores: reler os papéis com anotações, reverificar os dados a transportar, ouvir os primeiros noticiários do dia, abrir a janela envidraçada da varanda e decidir a cor do fato para esse dia, da gravata e da pasta. Seguidamente dava uma passeio com o seu cão Tim.

No regresso, preparava o pequeno-almoço para ambos e finalmente tomava o seu duche, barbeava-se e saía calmamente despedindo-se calorosamente de Tim.

O percurso até ao escritório parecia-lhe sempre curto, dado os poucos carros a circular àquela hora. A hora de ponta seria mais tarde. À saída da sua zona residencial, apreciava a tonalidade das folhas das árvores que ladeavam a avenida e depois embrenhava-se nas artérias da cidade. Ao chegar ao seu edifício, contornava-o até visualizar a entrada para a garagem, onde tinha um lugar cativo para estacionamento no piso imediatamente inferior à entrada do prédio.

O seu gabinete localizava-se na área central do 3º andar, sob o lado direito do elevador principal. O piso era todo alcatifado num imponente vermelho escuro e o corredor de acesso aos diversos gabinetes e salas tinha várias litografias alusivas à cidade emolduradas a dourado, numa ordenação quase cronológica.

O seu espaço, de dimensão média, tinha uma outra secretária que raramente estava ocupada. Destinava-se à representante da firma na filial de Auckland, para os raríssimos casos em que a sua deslocação profissional à cidade se tornava imperiosa, o que sucedia apenas em reuniões com clientes internacionais ou em formações, e cuja duração não excedia os três ou quatro dias.

Apesar da sensação de uma comodidade clean, o ambiente estava impregnado de stress.

O computador sinalizava persistentemente que existiam três mensagens importantes por ler, pelo que urgia dar-lhes atenção para conseguir que o repetitivo som ‘clack’ pre-configurado parasse.

Uma delas pertencia ao cliente cujo processo iria ser avaliado em audiência preliminar a meio dessa manhã. Anthony Sims pareceu-lhe muito ansioso, o que significava que Duncan Alby teria ainda de reservar um espaço de tempo para falar com ele pessoalmente antes do início da audiência.

A outra mensagem era do Senior Partner da firma, Patrick S. Dynt. Solicitava uma reunião para ponto de situação daquele caso. Embora sendo um procedimento comum, este género de marcações de última hora deixavam sempre alguns laivos de desconforto em Duncan Alby.

Sentado à sua secretária, não chegou a ler a terceira mensagem e o seu olhar desviou-se para o telefone. Discou a extensão da sua assistente e pediu um café e somente depois voltou a dedicar-se às mensagens.

O café foi servido breves instantes depois e Duncan olhou para as horas. Tinha precisamente 10 minutos até à reunião , entretanto aceite via eletrónica. Recostou-se na sua cadeira e rodopiou em direção à janela e ao céu azul da cidade, mostrando-se extático.

Todavia, a hesitação de Duncan crescia a cada segundo. Não existiam muitas opções – pensou. Apenas duas de acordo com o seu critério. Ou transmitia a única inconsistência do caso, aquela que poderia ser a pedra de toque para a derrocada da sua argumentação de defesa e consequente perda do processo, ou optava por omiti-la.

Duncan tentou dissecar friamente as vantagens e desvantagens das duas opções. Se não divulgasse essa fragilidade, bem localizada, mais tarde em caso de derrota, seria certamente acusado por Dynt de ter negligenciado ou omitido um dado crucial. Se optasse por mencioná-lo, mais uma vez seria acusado de pessimismo e ouviria pela milésima vez uma palestra sobre as vantagens de ser menos minucioso  e mais eloquente – em segredo, Patrick S. Dynt pensaria que ele estava a vacilar perante o mais temido adversário, Robert Middletune. No entanto, as falhas na identificação e de provas levavam Duncan a considerar que para um advogado com o renome e competência de Middletune, seria impossível passarem sem serem detetadas, por mais que uma oratória bem construída, forte e evasiva fosse avançada.

Como  recurso, em sua opinião seria preferível tentar-se desde já um acordo do que deixar prosseguir o caso. Sem mais.

O tempo parece ter galopado – pensou Duncan Alby. Vestiu o seu casaco, ajustou a gravata, pegou no laptop e saiu do gabinete.

3.1 Roberta Trenni

O apartamento era pequeno. Uma acertada escolha de móveis, na sua maioria brancos, dera ao espaço uma aparente amplitude, e a disposição de objetos e almofadas vermelhos transmitia logo à entrada, uma alegria espontânea ao visitante.

Roberta Trenni preparava o tabuleiro para o café quando a campainha da porta soou. De imediato, Roberta pulou sobre a sua direita, esticou o braço premiu o botão da máquina de café no On e impacientou-se em direção à porta. Ao abrir deparou-se com Maria, a sua vizinha do (1ºD).

  • Ah – suspirou em tom de surpresa. Recompôs-se.
  • Sim, Maria? – acabou por balbuciar.
  • Olá Roberta. Pode por favor baixar o som da sua música? Sabe, estamos a tentar descansar e não conseguimos.
  • Oh, desculpe! Vou baixar, claro que sim. Nem estava a reparar que estava tão alto.
  • Obrigada. Até amanhã.
  • Xau!

Fechou a porta devagar, sorriu tapando a boca e encostando-se levemente à parede por um instante. Em seguida, baixou o volume de som da música e regressou à kitchenette para colocar uns biscoitos no tabuleiro e verificar o nível de água da máquina, quando a campainha se fez ouvir novamente. Será que o som da música não está ainda suficientemente baixo?- murmurou para si.

Abriu a porta e lançou um olhar atónito. Afinal, era Francesca.

  • Pareces admirada. Enganei-me no dia ou na hora? – perguntou Francesca a sorrir.
  • Olá! Ora nada disso. Entra! Convenci-me de que seria novamente a Maria do 1º com problemas com o nível de som…
  • Mas que aborrecido! – interrompendo. Está sempre a queixar-se não é?
  • Quase todos os dias. Bom vamos tomar o nosso café!
  • Vamos!
  • A sala está diferente de novo? Nem acredito! Roberta, quanta necessidade de mudança das coisas!!!- exclamou.
  • Renovação!- gritou Roberta da kitchenette. Noção de renovação, minha querida. Não há um único objecto novo, mas gosto da ideia do paralelismo com a novidade.
  • Pois. – respondeu Roberta de forma desinteressada. E de resto?
  • De resto – continuou Roberta num timbre de voz alto – pareces cansada.
  • Talvez esteja, mas muito satisfeita e convicta de que estou a desenvolver uma actividade útil e construtiva.

Roberta trouxe os cafés e os biscoitos e deixou-se cair desamparadamente no sofá ao lado de Francesca.

  • Sabes, voltei a encontrar o Marcus – informou.

Francesca tirou o seu café do tabuleiro tentando recordar-se do Marcus, deu um golo no seu café, e olhou pausadamente para Roberta a mexer o açúcar na sua chávena.

  • Não sei se terá sido um acaso feliz – acabou por dizer.
  • Nem eu – respondeu Roberta. A vida é assim.
  • Estivemos duas horas a conversar. Ele estava giríssimo, tal como quando fomos ao Temper, lembras-te?
  • Nós fomos ao Temper há meses… três ou quatro, suponho. Desculpa, mas não me recordo Roberta.
  • Que desmancha prazeres! Como é possível não ter ideia?

Francesca considerou de si para si, se aquela visita a Roberta não teria sido uma perda de tempo, tempo tão precioso para a sua nova atividade. Durante alguns escassos momentos, alheou-se dos diversos pontos vermelhos da sala, da espampanante blusa de folhos em tom laranja da amiga e fez um ’tour’ rápido pelo passado recente da vivência de ambas.

Decerto o vidro transparente que começava a erguer-se entre elas, devia-se essencialmente a um nome, a alguém: Giovanni. E disso Roberta era totalmente alheia.

A convicção de Giovanni havia transformado a vida de Francesca. Uma forma de contágio, extremamente veloz, modificara o seu quotidiano e transformara-a numa pessoa muito mais consciente de um mundo que existia para além dos amigos, da casa, e do ex.namorado – que na verdade a constrangia, atalhava as suas ideias e até os seus movimentos.

Ao contrário, Roberta mantinha-se fiel ao seu ideal de vida de sempre: ter um relacionamento estável, casar-se bem, e ter um trajeto sem recurso a um emprego, numa dedicação total à família e aos filhos. E ir a festas, claro.

Francesca demitira-se sempre de qualquer opinião sobre o assunto. Por outro lado, a forma alegre e jovial da amiga tinha contribuído e muito, para aliviar os seus dias taciturnos durante o período de procura de colocação profissional. Sem ela, tudo teria sido assaz dramático, atendendo ao carácter intempestivo de Francesca.

A imagem desse tempo fê-la estremecer.

Acabou por ouvir Roberta a insistir na pergunta. Afinal só tinham decorrido alguns segundos…

  • Até parece que não ouviste nada do que eu disse…
  • Oh, claro que ouvi. Só que estava a tentar recordar-me com mais minúcia dessa época, do Marcus. Roberta, eu nunca omiti o meu desagrado pela forma como ele trata as mulheres. Nada do que ele afirma no que respeita a sentimentos ou episódios passados me parece credível. Receio pela minha amiga.
  • E ele já te deixou ‘pendurada’ uma vez num local desconhecido e sem uma explicação atempada, acrescentou.
  • A mãe estava doente, foi a explicação que ele me deu no dia seguinte.
  • Está muito bem – respondeu Francesca, pondo um ar incrédulo. Mas nós já passámos da adolescência. E depois existem sms’s que se podem enviar no momento em que surge algum imprevisto.

Foi a vez de Roberta ficar pensativa. Começou a brincar com a colher de café do pires da sua chávena de café, olhou em redor e acabou por dizer:

  • Francesca, eu sei que tens razão. E também sei que como minha amiga queres evitar-me mais uma desilusão. Mas se uma pessoa não tenta, acaba por nunca saber. Ele convidou-me para uma sessão de cinema no sábado. Eu vou aceitar. Pensei telefonar-lhe amanhã.
  • Cinema no sábado…E a sessão é numa sala pública de cinema ou em casa?
  • Ora, Francesca. Que má vontade! No cinema, claro. – afirmou contristada.
  • Está bem, óptimo – disse Francesca, não muito convencida.
  • Mudando de assunto, lembras-te daquela mesa que vimos em Roma, quando saímos de La Pizzaria? Estou a pensar comprá-la. Que te parece?
  • A mesa pequena, decorativa, ou a outra maior, tipo secretária?
  • A maior. Será que ainda está disponível pelo mesmo preço?
  • Eu estou nas imediações todos os dias. Posso perfeitamente dar um pulinho à loja ao final do dia. Queres? – prontificou-se Roberta.
  • Obrigada. Que querida! Podias verificar o preço e a medida. Ou então, combinamos e passamos lá as duas.
  • Também poderá ser. E quando?
  • Sexta-feira, a próxima sexta-feira. E em seguida experimentávamos a outra pizza.
  • Excelente. Combinado.
  • Depois ligo-te para acertarmos a hora.
  • Durante o dia de sexta-feira?
  • Sim. Se houver algum imprevisto, falaremos antes.
  • Claro!
  • Roberta, tenho de ir. Já é tarde e ainda tenho de preparar uns panfletos para amanhã.
  • Panfletos??? Tem cuidado, Isso não é nada de perigoso, pois não?
  • Não, obviamente que não. Temos de preservar o nosso planeta e lançar alertas às populações, só isso.

Francesca levantou-se e dirigiu-se à porta.

  • Até amanhã. Dorme bem – desejou Roberta.
  • Até amanhã. O café estava óptimo, obrigada. Xau.