2.4 Preparativos

O final de tarde estava esplêndido e desafiava a um passeio pela cidade ou a uma paragem numa esplanada, das várias dispersas pelas aprazíveis praças de Roma.

Apesar do habitual bulício da hora e das hordas de turistas ávidos por ver, calcorrear e desfrutar da beleza da urbe, Francesca apenas queria chegar rapidamente a casa para coordenar todas as ideias afloradas durante a reunião.

  • Tenho trabalho pela frente – pensou. Uma ou duas horas, não mais, espero.

O seu bairro era calmo, localizado num dos subúrbios, a cerca de 38 km a norte da capital. Já se encaminhava para o seu 3º andar, quando se lembrou que precisava de passar pelo mini-mercado na Viale de Africa. Saíu de novo do edifício e ao cruzar-se com a sua vizinha do 2º andar já na rua, cumprimentou-a efusivamente como era seu hábito.

  • Viva Roberta, que bela tarde temos hoje!
  • Olá Francesca! Sempre bem disposta! Este sol é nosso, verdade?
  • Verdade. Até logo.
  • Tomamos um café mais tarde? – sugeriu Roberta.
  • E por que não? Na sua casa ou na minha?
  • Na varanda da minha sala! Nove meia?
  • De acordo – respondeu Francesca. Até lá. Agora tenho de correr para fazer algumas compras, antes que as lojas fechem.
  • Chiao! Vemo-nos mais tarde.

Francesca apressou o seu passo mais uma vez. Andava sempre a correr de um lado para o outro – pensou. Por que seria? Ora!  Era assim mesmo, não sabia viver de outra forma.

Continuou por aquele passeio até ao final do seu quarteirão, aguardou que o semáforo assinalasse luz verde para o peão e atravessou, continuando sempre em frente até meio do quarteirão seguinte. Deteve-se numa banca de frutas, cheirou uma maçã e apanhou um saco de plástico transparente dum monte de sacos à direita. Escolheu cinco ou seis maçãs, depois umas uvas e finalizou enchendo um saco com umas laranjas pequenas e feias e dirigiu-se ao interior da loja.

  • Boa tarde a todos – saudou Francesca.
  • Boa tarde, senhora – respondeu Dino ao aceitar os sacos. Temos laranjas maiores do que estas, ali, viu?
  • Vi, mas estas são boas para sumo.
  • É tudo? 10,85€.
  • Obrigada. Até amanhã.

Francesca pagou e saíu em direcção ao mini mercado. Atravessou a avenida a meio e o jardim municipal e em cinco minutos chegou ao mini mercado. Comprou sopa congelada, um pacote de chips, aperitivos, salame, pão e manteiga.

É suficiente – pensou. E colocou-se na fila para pagamento. Só nesse instante, começou a aperceber-se que não ía ter muito tempo para elaborar o trabalho combinado com Giovanni. Pois aceitei o café… Ah, logo se verá!

No caminho de regresso, olhou distraidamente para os prédios de apenas quatro ou cinco andares e frentes direitas. Sentia-se uma aragem quente que não chegava a ser vento. Muito agradável – Francesca concluiu contente.

Ao chegar a sua casa, arrumou as suas compras. Colocou parte da sopa numa tigela pequena dentro do microondas e a outra parte acondicionou no frigorífico, onde já estava o salame e a manteiga. Preparou um tabuleiro que deixou em cima do balcão.

Na sala, abriu um dossier e pensou em iniciar o seu trabalho. Computador ligado, rapidamente elaborou um resumo da reunião, tentando não falhar qualquer comentário dos diversos oradores. Ata concluída e enviada por correio eletrónico. Cópia colocada no dossier.

Decidiu verificar como estava a situação online. A página do Movimento mostrava última entrada da manhã desse dia. Grupo+ e blogue. O Grupo+ estava animado e os comentários sucediam-se entre os membros mais próximos. Acompanhou a conversa durante mais de 10 minutos, soltou ‘um até sempre’ ‘ate amanha’. e verificou o blog. Giovanni atarefava-se – pensou. Amanhã estará mais completo! E fechou a ligação. Tinha de aquecer a sopa e jantar. A criação dos panfletos ficaria para depois do café.

2.3 O quebrar do gelo

Atirou a roupa suja para o cesto de palha perto da janela e desceu, dirigindo-se à cozinha. Tenho de confirmar se a minha roupa deve ficar ali…

  • João Miguel, venha para aqui! – ouviu.

Era a voz de Pedro a chamá-lo. Voltou para trás em direcção à sala e viu Pedro em frente, já sentado à mesa.

  • Então pensava que ficávamos na cozinha?! disse Pedro.
  • De facto foi o que pensei…- concordou João Miguel, abanando a cabeça.
  • Eu já estou a petiscar. Que fome! E estendeu um pratinho com azeitonas pretas.

João Miguel sentou-se num dos lados e sorriu.

  • Também já tenho algum apetite – respondeu. E aceitou uma azeitona.
  • Vamos comer o assado acompanhado com hortaliça cozida do nosso cultivo e em seguida vamos dar uma volta pelas terras. Se precisar de alguma coisa, damos um pulo à aldeia. Concorda?
  • Parece-me um bom plano.

Margarida trouxe o tabuleiro com o lombo de porco assado e algumas batatas, e João Miguel levantou-se e ajudou-a a transportar o restante: a travessa com a hortaliça, mais pão e a fruta para a sobremesa.

O almoço aliviou a formalidade e o diálogo fluiu quase como se fossem conhecidos de tempos idos.

2.2 Arrumações

Meia hora bastou-lhe para colocar as roupas em ordem. Tinha optado por trazer apenas umas peças mais práticas, cinco camisas, várias camisolas de algodão, roupa interior para uma semana, dois pullovers, um camisolão, um blusão e um blazer com calça idêntica e jeans.

A gaveta de cima acabou por ficar com os seus objectos de higiene, after-shave e outras coisas soltas, como o seu Tag Heuer e uma gravata – que agora se questionava por que motivo teria resolvido trazê-la. Disparate! concluiu.

Ao voltar ao quarto, resolveu fazer a cama. Tarefa cumprida, olhou em redor. Na única peça de mobiliário existente para além da cama, uma mesa em madeira de pinho sem verniz, colocou o seu portátil e tentou encontrar uma tomada de corrente, mas só existia uma quase no final da parede. Teria de comprar uma extensão de fio, algures, ou pedir uma. Hoje não – pensou. O banco de madeira perto da mesa era sólido mas parecia ter uma perna mais curta, ao sentar-se sentiu um ligeiro desequilíbrio. Ora isto tem conserto – concluiu de si para si, sem dar importância.

Num olhar mais detalhado, acabou por achar prático ter só um pequeno candeeiro de pé perto da cama. Só é pena o colchão ser tão rijo – congeminou.

Decidiu ir tomar um duche. A água tépida e o aroma do sabonete foram revigorantes. Vestiu-se rapidamente pois estava em cima da hora do almoço. Não queria ser desagradável logo no primeiro dia.

2.1 Ambientar-se

O carreiro era estreito e térreo, e percorridos os primeiros cinquenta metros em direcção à casa, havia uma curva acentuada. A seguir, tinha-se a percepção da dimensão da parte traseira da habitação e como de um quadro se tratasse, ressaltava uma quantidade imensa de flores dispostas de uma forma pouco harmoniosa mas contrastante com o aspecto austero da construção, e que adicionava à pintura uma palete de cores até aí ausente.

O caminho de regresso, em passada calma e compassada, deu-lhe o alento que parecia perdido.

  • O local é muito agradável – pensou João Miguel, afastando qualquer outra ideia que pudesse tornar o horizonte cinzento.

Ao entrar em casa deparou-se com um rapazinho que estava a entregar umas mercearias em dois pequenos sacos e a receber o pagamento.

  • D. Margarida, obrigada. Assim foi muito melhor, as moedas dão sempre jeito. Até amanhã.
  • Adeus Nelo, espero que amanhã não falte mais nada na dispensa.
  • Vêm entregar as compras a casa? – perguntou João Miguel.
  • Ás vezes mas só aqueles produtos que ficaram esquecidos. Nós deslocamo-nos ao mercado normalmente duas vezes por mês. Qualquer coisa que nos falte, encomendamos e entregam sem custos gasóleo, se houverem entregas a outros clientes nas proximidades.
  • Mas há pessoas a morar nas imediações?
  • A noção de proximidade aqui é um pouco diferente… Depois verá!
  • Estava a pensar ir arrumar as minhas coisas e tomar um banho antes de almoço.
  • Ótima ideia. Eu subo consigo para mostrar o seu móvel, o quarto de banho e onde estão guardados os seus atoalhados. Assim fica mais à vontade.

Subiram os dois, João Miguel atrás, satisfeito por não ter de confirmar o nome da mulher de Pedro Bacéu. Que sorte ter presenciado a entrega dos produtos – pensou.

De estatura mediana, cabelos encaracolados e um ar desenvolto, Margarida não tinha um traço em particular que a distinguisse, a não ser a sua genuína simpatia. Uns olhos castanhos ávidos e umas mãos irrequietas, que não gostavam de estar desocupadas, completavam a sua figura graciosa.

  • A Margarida cuida da casa sózinha? Posso tratá-la assim, por Margarida?
  • Sim, sim, Margarida ou Guida, como preferir. Temos uma senhora que normalmente trabalha aqui três vezes por semana, mas neste momento tirou uns dias para visitar um familiar em Ponta Delgada.

E continuou:

  • O seu móvel é este, as cinco gavetas estão vazias, pode utilizá-las e o restante, blusões, blazers ou calças pode utilizar este armário – disse. Premiu uma ranhura perto do móvel e deslizou a parede falsa, que ocultava um armário espaçoso, que continha apenas um cobertor grosso dobrado, uma almofada e duas toalhas de banho.
  • Que bom aproveitamento de espaço! – exclamou João Miguel.
  • A ideia foi do Pedro. Tivemos que fazer algumas remodelações na casa, esta foi uma delas. Faltam executar umas quantas, mas o Pedro gosta de comentar essas coisas de obras. Falarão depois, com certeza. Acrescentando: tenho de descer e verificar o assado.
  • Até já! Obrigada, Margarida.