1.6 A grande distância

Avançava a madrugada, quando o ar começou a refrescar. O calor escaldante do dia anterior dava lugar a uma brisa amena que soprava suavemente através das persianas abertas. A lua brilhava no seu circulo cheio e os contornos vermelhos faziam antever sucessivos dias de calor.

Uma outra luz ténue brilhava no quarto num ousado piscar de olhos com o brilho lunar.

Não havia qualquer brecha que permitisse uma percepção do material da mesa situada num canto do aposento, dado o amontoado de papeis rabiscados, dossiers e pequenas pastas abertas numa imensa mistura desordenada e aparentemente descoordenada.

Do outro lado, um laptop ligado e aberto deixava que se visse um vulto embrenhado, batendo num teclado, forçado numa escrita veloz mas concentrada.

Nunca se tinha considerado eloquente e não fazia parte dos seus sonhos chegar a um lugar de destaque no seu meio profissional. Consciente das suas limitações, entregava-se ao que mais gostava de fazer.

Tido por muitos por um trabalhador incansável, era na verdade esforçado e minucioso nas suas investigações. Produzia relatórios concisos, cujos tópicos possibilitavam uma apreensão rápida e correcta dos casos.

Distinto mas temido pelos seus ímpetos de fúria, muitas vezes motivados por um sono escasso, se tinha um defeito acentuado era o de se perder no tempo, consumindo horas a fio à procura de possíveis falhas nos depoimentos das várias testemunhas.

Duncan Alby não sabia as horas. Ao acabar o seu trabalho, sentiu-se extenuado e com sede. Espreguiçou-se na cadeira com as suas mãos cruzadas atrás da nuca e bateu com os pés no chão para se descontrair.

Ergueu-se depois em direcção à cozinha e ao frigo. O sumo de pêssego deslizou para o copo, deixando-o embaciado. Ao fim do segundo copo, ficou reconfortado.

  • E vou descansar. Deve ser perto da 1h00 – considerou. Resolveu consultar o relógio num gesto de confirmação.
  • Oh, 03h40. Nem acredito! – pensou de si para si.

Dirigiu-se ao seu quarto, localizado na parte lateral da sua habitação vazia e deitou-se. Passados poucos minutos, adormecia profundamente.

1.5 A reunião

Tocou à campainha desta feita já em frente à porta do primeiro direito. A porta abriu-se e ouviu uma voz masculina:

  • Até que enfim! Entra, já começámos mas ainda vamos no segundo ponto da ordem de trabalhos.
  • Olá! É infernal chegar aqui a esta hora. Péssima ideia agendar a reunião para as 13h00.

Fabrízio não respondeu. Limitou-se a entrar na sala e ocupar a cadeira que lhe estava destinada. Alguém iniciava o comentário ao ponto três dos dez previstos para debate. Francesca não o conhecia. Sentou-se numa das últimas cadeiras livres na última linha em relação ao estrado improvisado, num fundo frontal com um quadro branco.

Viu um aceno de alguém à frente. Era Giovanni a saudá-la. Um rosto familiar! – pensou. Acenou-lhe de volta.

O orador referia agora os danos causados nos oceanos pelo derrame de petróleo. Milhares de espécies marinhas colocadas em risco de extinção.

Francesca ouviu-o atentamente e no final resolveu intervir e colocar uma questão:

  • Detectados os problemas, qual as medidas que poderemos tomar? A situação dos mares e oceanos, rios e riachos e de todos os despejos de produtos tóxicos são sobejamente conhecidas de todos os presentes, atrevo-me a dizer. Mas se nenhuma acção é preconizada, o Movimento não tem razão de existir.
  • Concordo. – disse uma morena que se encontrava a meio da sala.
  • Concordamos todos! – afirmou o orador desconhecido. E os braços de todos os presentes ergueram-se e as vozes ecoaram. SIM!

Giovanni sentiu-se satisfeito pelo andamento da reunião. Tinha tomado a decisão acertada ao convidar Francesca para o Movimento e ao persuadi-la para que aceitasse o convite. Também não tinha sido difícil. Era a pessoa certa, assertiva, ativa, interessada e com uma energia contagiante.

A reunião prosseguiu durante mais duas horas. Os sete pontos seguintes foram debatidos detalhadamente e no final decidido por unanimidade realizar uma manifestação pelas principais artérias de Roma para dar a conhecer a defesa da ecologia a nível global prioridade do Movimento ‘Ecologia no Mundo’.

  • Estou absolutamente faminta! – exclamou Francesca.
  • A esta hora quem não estará – disse Giovanni. Vamos todos almoçar. Conheço o restaurante certo para nos servir um bom almoço a esta hora.
  • É perto? – questionou Lauro, o orador.
  • A meio do próximo quarteirão.
  • Vamos então, experimentar as iguarias do sítio – alvitrou Francesca com muita vivacidade.

1.4 Num outro local

Bem longe dali, Francesca apressava o passo numa avenida apinhada de transeuntes.

Alheada das montras das lojas elegantes da Via Venetto tentava esgueirar-se por entre as pessoas que caminhavam devagar, conversavam, paravam, constatavam preços… À distância ainda ouviu : Que belo decote naquele vestido. Alguém respondeu: Magnífico. E a cor da seda… Entramos, para ver melhor?

Francesca Caprezzi não se deteve, nem olhou para trás, continuando a caminhar no seu passo leve, apressado. Ainda faltavam cerca de 200 metros até chegar ao seu destino e estava atrasada.

Marcar a reunião para este horário não foi uma boa ideia – pensou. Contornou, saíu um pouco do passeio para evitar embater numa velhota que se apoiava numa sombrinha da sua idade e entrou num edifício. Agora bastava subir dois lances de degraus até ao primeiro andar direito.

O edifício de cinco andares estava construído há 62 anos. Á entrada, do lado direito da porta principal, uma placa em latão indicava o ano da construção, o nome do arquitecto responsável pelo projecto e o ano da renovação total do prédio, sem mais detalhes. O seu hall era amplo, as paredes revestidas de um material alvo e as quatro colunas que ladeavam os primeiros degraus eram em mármore róseo. O tecto formava uma abóbada e no centro os trabalhos em alto relevo, mostravam um bouquet de flores. Á esquerda dois espelhos rectangulares a uma distância paralela reflectiam as plantas plastificadas dispostas perto da parede oposta.

Não havia elevador. Os degraus da escada tinham uma altura regular e encontravam-se cobertos por uma fina alcatifa de um vermelho escuro.

Os dois primeiros pisos habitualmente ocupados por escritórios de empresas com actividades diversas não se encontravam totalmente ocupados. Havia um dístico na porta do primeiro andar esquerdo com : Para arrendar. O primeiro direito tinha sido outrora o escritório-sede de uma revista de Moda. Dois dias após a sua última edição impressa, fechou portas, tendo a fracção, pertencente a um particular abastado, sido alugada a um preço bastante módico ao recém criado Movimento.

1.3 Encontro com Pedro Bacéu

João Miguel saiu pela porta traseira directamente para a horta. Banhou-o um forte aroma a flores e um cheiro a madeira numa mistura pouco familiar.

Apressou o seu passo e tentou encontrar Pedro Bacéu, amigo de há longa data de Carlos Maria, seu amigo de infância.

Encontrou-o perto do estábulo, a limpar o chão.

  • Bom dia, Sr. Pedro.
  • Viva! Como se sente? Trate-me por Pedro, é o meu nome.
  • Bem! Por onde posso começar? – respondeu de rompante. Não era verdade. O corpo doía-lhe e a cabeça não parecia a sua, estava oca.
  • Calma, homem. À tarde vamos dar uma volta para se ambientar com as áreas do terreno. Ainda são uns quantos hectares… Agora tenho de acabar a limpeza aqui. Vemo-nos ao almoço. Até lá, aproveite para arrumações ou para tomar um banho. Tem um ar exausto.
  • Obrigado. De facto um banho é uma boa ideia!
  • Bom, até já. E prosseguiu com o trabalho. Esperemos que este convite de amigo tenha sido uma boa ideia, pensou.

1.2 Pequeno-almoço

A casa era grande com corredores compridos e pouco iluminados. Em tempos a decoração rústica deveria ter marcado o auge do lugar, mas com o decorrer dos anos estava baça.

Sentiu prazer em descer os degraus em semicírculo que levavam ao piso inferior. Não conseguiu encontrar o quarto de banho. Depois do hall, à esquerda via-se a sala de jantar e à direita um pequeno corredor conduzia a uma área de serviço interno. Tomou essa direcção e chegou a uma cozinha enorme, com uma mesa central. Viam-se produtos hortícolas dispostos desordenadamente em cima da mesa rectangular de tábua corrida: couves, alfaces… • Bom dia João Miguel. Posso tratá-lo assim, não?

  • Claro que sim! Bom dia!

Queria lembrar-se do nome dela. Sabia que tinha nome de flor… Hortense? Não. Margarida? Talvez. Ainda se sentia aturdido.

  • Deve ter fome. Tem pão fresco naquela bancada e manteiga no frigorífico. Sumo, leite o que preferir.
  • Obrigado. Vou servir-me.
  • O almoço é à 1h30.
  • Óptimo. E o Sr. Pedro?
  • Está nos trabalhos faz horas. Aqui começamos cedo… – não quis continuar para não ser rude. Não o conhecia, pensou.
  • Vou já tentar encontrá-lo.
  • Coma descansado. Nada como a primeira refeição do dia… Também, acabou de chegar – retorquiu num tom afável.

João Miguel sorriu. Por cima do frigorífico havia um grande relógio de parede, em madeira encerada. Marcava 10h59. Finalmente tinha conseguido saber as horas. Era tarde.

Serviu-se de uma fatia de pão com manteiga e um pouco de sumo de laranja, o primeiro jarro na prateleira do frigorífico. Não viu leite, também não o procurou.

O pão era grande, caseiro. Recordou-o da sua infância e da casa da sua avó Celeste. Há anos que não comia pão caseiro, cortado à fatia.

Sentado, melancólico e alheio à senhora com nome de flor, que se atarefava junto ao lava-loiça lavando a hortaliça. Lembrou enquanto mastigava o seu pão, do seu donut de chocolate e da meia de leite tomados à pressa na pastelaria de esquina. Sempre um donut… Saboroso, interrompido com ‘sms’, chamadas e cumprimentos de outros clientes da Pastelaria Central que entravam no local e cuja presença em horário habitual transformava todos em amigos de rotina.

Tomou o pequeno-almoço em silêncio.

Do outro lado, a sua companhia começava a pensar na tristeza do rosto do João Miguel. Ora, há-de passar-lhe – concluiu, para se concentrar no seus afazeres. O almoço estava atrasado.

1.1 A mudança

Em destaque

Naquela madrugada tudo estava mais calmo do que o habitual. Na rua não parecia existir o movimento caótico de viaturas, ruído de motores, buzinas e de vendedores a apregoar os seus produtos.

Durante alguns instantes, ainda aturdido pelo sono de uma noite mal dormida, distendeu-se na cama, aconchegou-se e pensou em voltar a dormir, alheando-se totalmente de tudo o que pudesse perturbar o seu descanso

Um cão começou a ladrar. Um cão, pensou… Estaria a sonhar… O sono esvaiu-se perante o latir do animal.

O despertar revelou a realidade não consciente. O local parecia-lhe desconhecido, paredes esfumadas, estaladas, esburacadas, em que cada canto pedia a mão de um pintor profissional que se esmerasse numa renovação de estrutura e cor.

O colchão era tão espartano que dormir em cima da velha alcatifa teria tido um efeito muito mais relaxante. A cama não era a sua, concluíu.

Um singular raio de sol conseguiu entrar no espaço, irradiando uma luz agradável mas parca.

Estava na ilha, pois já estava na ilha, recordou-se. A luz clareou a sua mente que durante segundos ainda teimava em perseguir um adormecer.

Levantou-se de um pulo. Não conseguia ter noção das horas, não havia relógio no quarto, não sabia do seu relógio de pulso. Olhou em redor, vasculhando todo o espaço numa observação minuciosa e esforçada. O relógio não estava ali.

A procura imóvel do objecto levou-o a sentir fome. E que fome! Melhor sair dali e tomar pequeno-almoço, pensou. De certeza que os proprietários teriam alguma comida na cozinha, considerou já mais animado.