7.3 Compra

Francesca Caprezzi apressava-se a executar todas as ações habituais antes de deixar a loja. Contrariamente ao que havia sucedido durante os demais dias da semana, aquele tinha sido bastante movimentado com imensas clientes, umas apenas com o intuito de visitar e inquirir, outras acabando por comprar um artigo ou outro. Francesca estava satisfeita com o resultado.

  • Tenho de ligar a Roberta – pensou. Estou muito atrasada.

Dirigiu-se à sua mala, procurou o telemóvel e quando o localizou, marcou o número de Roberta.

  • Pronto! – ouviu-se.
  • Alô Roberta. Estou atrasada…
  • Já tinha reparado – respondeu Roberta num tom aborrecido.
  • Mais 10 minutos, pode ser?
  • Outra solução existe?
  • Queres vir aqui ter?
  • Não! Vou tomar um refresco no Bambini. Vai lá ter…
  • Combinado. Até já! E desligou.

Roberta contornou a praça e escolheu uma rua que se parecia com qualquer uma das outras. Estancou na passadeira de peões, esperou pelo sinal verde e atravessou. A cinco metros um toldo grande azul e branco assinalava Bambino Café. Ao chegar optou por uma mesa sobre o lado direito da esplanada, recostando-se com um ar reconfortado na cadeira de verga.

O funcionário vindo do interior dirigiu-se a um casal numa mesa ao lado e em seguida, aproximou-se dela.

  • Uma limonada, por favor. Com muito gelo!
  • Com certeza!

Volvidos uns longos minutos a sua limonada foi servida. Precisamente nessa altura Francesca procurava a sua amiga na esplanada e quase esbarrava com o funcionário.

  • Desculpe! – disse Francesca para o rapaz.
  • Oh, Roberta! Estás aqui. Viva!

O funcionário inicialmente sisudo acabou por esboçar um sorriso perante tamanho despiste e vivacidade.

  • Estás boa Francesca? – perguntou Roberta calmamente.

Francesca, que já estava a voltar-se novamente para o funcionário, não respondeu.

  • Por favor, um sumo igual para mim. Com gelo!
  • Limonada, Senhorita?
  • É limonada? – perguntou Francesca a Roberta.

Roberta limitou a acenar que sim com a cabeça.

  • Então limonada com gelo. Obrigada.

O funcionário regressou ao interior do café.

  • Estou estafada e cheia de calor – disse Francesca em jeito de resposta tardia à pergunta da amiga.
  • Se preferires, não iremos ver as mesas hoje.
  • Por que não? Vamos sim. Fica já tratado. E tu como estás?
  • Ótima, mas este dia está tremendamente quente.
  • Ui! Então depois da correria que foi até chegar aqui…
  • Deixa, agora com os refrescos vamos ficar bem. Estas limonadas são fantásticas!
  • Eu sei! Para mim estão completamente aprovadas.

Saíram do Bambino Café vinte minutos depois em direção à loja de mobiliário.  Nessa altura o sol poente e a aragem de final de tarde tornavam o ar mais suportável.

Ao entrarem no espaço Design e Mobiliário ficaram surpreendidas com a sua dimensão. A montra, de tamanho médio, não denotava a imensa área da loja e a existência de dois pisos.

Francesca e Roberta concordaram em visitar os dois pisos para tirarem ideias e só depois debruçarem-se sobre o motivo da sua visita. Muito embora os dois andares tivessem algumas peças interessantes, os preços pareceram demasiado elevados a Francesca e a minúcia de Roberta naquele tipo de ambientes era totalmente exasperante. Em determinado momento, Francesca Caprezzi considerou que se soubesse o tamanho da Design e Mobiliário nunca teria combinado qualquer encontro com Roberta ali. Mas a amiga, quando queria, conseguia ser absolutamente amorosa.

  • Eu perco-me não é Francesca? – questionou, após um olhar mais atento para a expressão da amiga.
  • Roberta, nem vou responder…
  • Tem peças lindas… Vamos já descer para o piso zero.
  • Não digo que não, mas os preços são elevados, mesmo com promoção.
  • Vamos ver as mesas? perguntou Roberta para mudar de assunto.
  • Vamos!

Acabaram por escolher uma das mesas médias dentro do quadro “super-económico” assinalado por um enorme dístico que marcava uma reduzida área da loja. Antes Francesca Caprezzi tinha verificado cuidadosamente as suas anotações com as medidas e solicitado à funcionária que as atendia, as medidas de três das mesas em exposição. Decisão tomada, acordaram o dia e a hora da entrega da peça e Francesca efetuou o pagamento.

Ao deixarem a Design e Mobiliário as amigas já estavam as duas bem dispostas e cheias de apetite. Eram 21h30.

Durante o jantar o diálogo foi animado e acabaram a noite em casa de Roberta a tomar chá gelado com bolo já pela noite dentro.

Francesca Caprezzi nem se apercebeu dos dois sms de Giovanni Onetto.

7.2 Mais contatos

Lauro Donnati estava extremamente satisfeito com a reação que tinha despoletado. A maioria dos seus seguidores havia contribuído ativamente para a modificação dos panfletos. A única nota digna de permanecer era a tonalidade de verde escolhida por Francesca. Para além disso, optaram por desenvolver um outro cartaz, maior e arrojado, com uma mensagem bastante agressiva, que mais do que uma frase ecológica poderia ser vista como uma critica feroz às atitudes vigentes.

Após se certificar que a sua ala aprovava em uníssono o trabalho desenvolvido, Lauro enviou a versão final para Giovanni.

::::::::::§::::::::::

Fabrizio estava à procura do número de telefone do amigo para saber novidades quando se apercebeu da chegada do e-mail de Donnati. Parou, abriu a mensagem e ficou atónito a olhar para o material recebido, mais concretamente para o enorme cartaz enviado como último documento.

Agarrou de novo no seu telefone móvel e ligou para Giovanni.

  • Giovanni?
  • Fabrizio, quanta rapidez!
  • Nada disso… já viste a mensagem que acabámos de receber de Lauro?
  • Não, não vi.
  • Então abre.
  • Só um minuto – pediu Giovanni Onetto.

Dirigiu-se à mesa do computador e acedeu ao e-mail. Localizou a mensagem de Donnati, abriu-a e verificou o trabalho recebido.

  • Fabrizio, alô?
  • Sim… – respondeu Fabrizio.
  • Já vi. Este tipo está parvo!
  • Referes-te ao cartaz, suponho.
  • Claro! Isto não pode passar!!!
  • Concordo. Ele é louco! Isso só nos trará problemas.
  • Louco, sim. Atrasou toda a campanha para acabar por enviar um trabalho que embora diferente não traz qualquer melhoria significativa no approaching que desejamos fazer. Este cartaz é uma autêntica armadilha!
  • O que tencionas fazer?
  • Enviar para todos e sondar reações. Só depois irei dizer alguma coisa. Mais um dia também não irá fazer grande diferença.
  • Envia para mim e eu farei os meus comentários. Queres que entre em contato com alguém?
  • Não, não. Esta situação vai auxiliar-nos no conhecimento da posição exata de todos os membros do Movimento.
  • Compreendo. Agora tenho de ir.
  • Fabrizio, obrigado.
  • Ora… Até amanhã.
  • Até amanhã. Ficas pela cidade este fim de semana?
  • Sim, sim.
  • Óptimo. Então se precisar ligo-te.
  • À vontade. Xau!
  • Xau!

Giovanni Onetto permaneceu imóvel na sua cadeira preferida durante alguns segundos. Em seguida reenviou o e-mail de Donnati para todos os associados, apenas com um nota posterior para Francesca indicando: – Preciso comentar este assunto contigo.

Abriu um outro documento para verificar se a lista de membros estava atualizada; assumiu que sim.

Acrescentou dois campos à grelha: comentários cartaz ; posicionamento geral.

7.1 Apanha de fruta

Até cerca das 10h00 a execução da nova função, embora exigindo algum esforço, ficava aquém da dificuldade imaginada por João Miguel.

Pedro Bacéu explicara-lhe o procedimento com minúcia e o método bastante artesanal acabava por surtir efeito.

Só que a partir do meio da manhã com o calor a fazer-se sentir, a tarefa complicava-se. Às 11h30 João Miguel estava estafado, transpirado e cheio de sede. Um dos trabalhadores notou.

  • Muito cansado? – questionou
  • Um pouco – respondeu João Miguel.
  • Isto ao principio custa.

Vinte minutos mais tarde apareceu Pedro Bacéu.

  • Já me disseram que há aqui alguém a precisar de socorro – gracejou.
  • Não é caso para tanto – respondeu João Miguel.
  • Descanse um pouco, por que não? – condescendeu Pedro Bacéu. Fez mais do que eu quando me iniciei.
  • Obrigado – respondeu João Miguel.
  • Mais um quarto de hora e vamos almoçar.
  • Ok.

A fruta era apanhada e colocada em cestas de cores diferentes consoante a qualidade: maçãs ou peras. O transporte para o caramachão era realizado por pessoas que não efetuavam a colheita. A primazia da recolha era dada às peras.

Antes do almoço Pedro Bacéu informou que teria de passar pelo armazém e fez sinal a João Miguel para ir consigo.

Ao entrarem no espaço nas 2ª e 4ª divisões à direita, João Miguel apercebeu-se que a fruta estava a ser dividida por dimensão. Uma escolha manual, realizada por mulheres.

  • Estas pessoas são da terra. Vêm aqui dar uma ajuda; a umas quantas pagamos, a outras não, trocamos serviço.
  • Como assim?
  • Também elas têm hortas ou pomares e quando necessário nós vamos trabalhar nas propriedades delas. Não são muitas, mas é um grupinho e uma colaboração interessante. E estabelecem-se laços.
  • O trabalho é todo feito manualmente pelo que me é dado constatar…
  • João Miguel compreendo a sua surpresa mas veja, nós estamos de início. É impossível para já conseguirmos investir em maquinaria. Primeiro temos de nos certificar que conseguiremos levar por diante esta aposta. Eu estou convicto que sim mas…
  • Claro! – exclamou João Miguel – olhando em frente com ar seguro.
Pedro não permitiu que continuasse.
  • O quanto eu gostaria de modificar estes procedimentos mas seria dar um passo maior do que a minha perna, como se costuma dizer.
  • Bom Pedro como deve ter entendido, eu estou realmente a gostar de estar aqui e acredito e quero acreditar que a sua aposta seja viável. Para mim tudo é novidade e tremendamente diferente do que fazia antes.
  • Eu sei. Aliás eu e a Guida também transformámos totalmente os nossos hábitos e estamos felizes com a resolução que tomámos. de qualquer forma agradeço a frontalidade e todosos seus comentários serão bem vindos. Deixe-me apenas dizer-lhe: a troca de serviços que temos com os demais caba por ser benéfica para todos, sabe porquê?
  • Fortalece relacionamentos?
  • E não só. Veja o trabalho é gratuito logo não se reflete nos preços finais dos nossos produtos.
  • Sem dúvida. Não tinha pensado nessa parte.
  • Embora seja impensável competir com os grandes produtores esse ponto acaba por jogar um pouco a nosso favor. Agora vamos almoçar e concentrarmo-nos noutros assuntos.

João Miguel limitou-se a sorrir.

Pedro Bacéu abriu a porta de casa, segurando-a para deixar passar o amigo.

6.5 Por outros lugares…

O sinal de chamada fez-se ouvir umas quatro vezes até que do outro lado Fabrizio atendeu.

  • Pronto!
  • Fabrizio? Fala Giovanni. Como estás?
  • Bem! Vens saber notícias dos nossos panfletos…
  • Acertaste! Decorreram dias sem qualquer novidade. A distribuição já devia estar concluída e não está sequer iniciada. Nem temos mesmo o material impresso quanto mais distribuídos…
  • Verdade – confirmou Fabrizio.
  • Eu ainda considerei enviar um mail ao Lauro mas não irei fazê-lo. Sabes como ele funciona… ainda poderemos ter de esperar mais tempo e causar-nos mais aborrecimentos.
  • Verdade mais uma vez! Só que eu não sei de mais nada. Se quiseres posso tentar ligar ao Raoul e através dele saber o ponto de situação.
  • Raoul??? Não pertence ao Movimento.
  • Não, não! Pelo menos por enquanto, mas é muito amigo de Maurizzio da fação Donnati.
  • Então liga para ele e depois diz-me alguma coisa. Mas ainda hoje! – pediu Giovanni.
  • Mesmo que não tenha resposta?
  • Sim, liga-me em todo o caso. Também preciso comunicar com Francesca que já deve estar a pensar que ou somos loucos ou totalmente desorganizados.
  • Ou as duas  coisas!
  • Pois!
  • Eu telefono-te. Até já então!
  • Até já! – despediu-se Giovanni. E desligou o telefone.

6.4 No Troley Ken

Patrick S. Dynt apressou o seu passo até ao carro. O motorista já o aguardava no local habitual, mesmo em frente à porta do edifício. Dynt entrou no veículo e indicou:

  • John para o Troley Ken, por favor.

John arrancou suavemente. O Troley Ken ficava do lado oposto da cidade, mas o trânsito estava fluido o que encurtou o tempo da viagem.

Chegados ao local, Patrick S. Dynt saíu da viatura deu boa tarde ao porteiro e entrou sem mais. Lá dentro Albert Rivera já o aguardava sentado numa das mesas do meio da sala. O local estava praticamente vazio, podiam perfeitamente ficar à vontade.

  • Olá Albert! Não esperaste muito, suponho?
  • Não, claro que não Patrick. Estou curioso pela marcação deste encontro aqui. Qual é o mistério?
  • Sem mistérios! Tudo cordato e banal. Só que como sabes gosto sempre de comentar com o meu senior partner certas opções antes de tomar uma resolução.
  • Olha o que tomamos?
  • Apetecia-me um Rembrandt com muito gelo.

Abert fez um gesto para a funcionária que acorreu à mesa.

  • Dois Rembrandt com muito gelo – pediu secamente.
  • A Dora e os miúdos ? perguntou Patrick S. Dynt.
  • Oh, estão bem. E Bertha? Cindy?
  • Ótimas! Então nesta época não têm outro desporto senão irem para a praia, a festas e fazerem compras.
  • Mulheres! O sexo feminino adora fazer compras, é consumista por natureza e creio bem que seja assim desde o início dos tempos.

A funcionária trouxe as bebidas e colocou-as amavelmente sobre a mesa, incluindo um prato de aperitivos para cada um. Dynt limitou-se a um gesto de assentimento sobre o serviço se desviar o olhar de Albert.

O diálogo solto continuou por mais uns minutos enquanto os partners saboreavam aos pouco as suas bebidas e picavam cadenciadamente os aperitivos.

  • Albert, recordas-te do processo Sims?
  • Vagamente.
  • O Belga diz-te mais alguma coisa?
  • Ah sim, claro! Como está esse assunto?
  • Para já a audiência foi adiada até ser localizado o dono da loja. Muito linear.
  • Qual loja?
  • A loja onde trabalhava Sims.
  • Entendo. Está no início…
  • Sim. O processo foi entregue a Duncan Alby e do outro lado temos Robert Middletune.
  • Que é muito bom. De qualquer forma, eu gosto do Alby.
  • Pois, mas já começou com reticências.
  • Como assim?
  • Ele pensa que há algo que não bate certo – informou S. Dynt, contendo um sorriso.
  • Ora bem… ele tem é que apurar os factos! – disse Rivera, rindo.
  • Só que ele separou-se daquela namorada, aquela brasa também advogada que agora anda com Middletune e receio que não se aguente.
  • Soluções temos?
  • Sim. Substituto: Paul Trimble.
  • Muito bem! Não será nessa escolha que precisarás da minha opinião.
  • Não de todo. Tive uma ideia: contratar um investigador para sabermos os passos de Duncan Alby. Assim teríamos uma noção mais próxima do estado do assunto.
  • E da aproximação… Não me parece mal. Já tens um nome em mente? É que também depende da pessoa escolhida.
  • Lembrei-me do Douglas Kent. Que te parece? Pode ser outro.
  • Kent… Utilizámos o seu serviço há uns tempos, há dois ou três anos atrás, correto? Fez um bom trabalho.
  • Sim. É um pouco rude, bruto.
  • Mas dedicado…
  • Isso é verdade.
  • Pomos em prática esta ideia ou será que ela é excessiva para a dimensão do assunto?

Rivera não respondeu logo. Acabou de beber o seu Rembrandt e sacudiu um pouco de aperitivo derramado sobre a mesa e só depois acabou por dizer:

  • Não temos nada a perder. Os honorários não são muito dispendiosos e jogamos, suponho pelo seguro.
  • Estamos de acordo – respondeu Dynt.
  • Caso avances, dás-me um toque?
  • Sem dúvida.
  • Gostava também que me colocasses ao corrente do processo e dos relatórios do advogado e na eventualidade de se avançar com a ideia, os de Kent. Pode ser?
  • Claro! Já pensava fazê-lo.
  • Ótimo.

Pouco depois os dois homens saíram do Troley Ken, deixando gorjeta em cima da mesa. Partiram em direção a suas casas.

6.3 Sexta à noite… com Tim

Duncan Alby acabara de jantar na companhia do seu inseparável cão Tim.

Antes de arrumar a sua cozinha, dirigiu-se ao vestíbulo e pegou na trela branca que se encontrava sempre visivelmente pendurada no pequeno cabide por detrás da porta de entrada.

Tim latiu de satisfação e pulou para Duncan, empoleirando-se nele com as duas patas da frente.

  • Para baixo Tim! Já para baixo! – ordenou Duncan Alby.

Tim obedeceu prontamente. Duncan colocou a trela no cão, abriu a porta e saíram os dois em passo calmo de passeio.

Aquela era uma das noites da volta prolongada. Tim sabia disso pelo ar descontraído do seu dono e pelo seu andar compassado.

Percorreram cinco metros da avenida sem se cruzarem com qualquer vizinho e viraram à direita em direção ao pequeno jardim.

Tim parava de quando em quando, uma das vezes para escolher o seu ‘quarto de banho’. O dono mostrava-se paciente.

A noite estava tépida  e a leve brisa noturna tornava o ambiente exterior muito agradável.

Duncan Alby respirou fundo enquanto observava uma das árvores mais frondosas do jardim, bem iluminada por um dos candeeiros de iluminação pública. Por momentos recordou-se da antiga agitação das noites de sexta-feira em companhia da sua ex. namorada, Katy Sheen. – Bela mulher, sem dúvida – pensou. Porém, não sentia a mínima saudade daquelas noites.

Uma deliciosa sensação de tranquilidade perpassou-o e sentiu-se feliz por estar a atravessar a avenida em direção ao jardim com o seu fiel amigo.

  • Esta calma bucólica tem tanto a ver comigo – reconheceu de si para si, olhando carinhosamente para Tim, que segundo depois, retribuiu-lhe o olhar.

Ao chegar à parte central do parque Duncan tirou a trela a Tim, deixando-o passear a seu gosto. Estava educado, conhecia o espaço, por isso não havia perigo.

Tim deambulou e pulou durante uns minutos e depois brincando com Duncan Alby, trouxe-lhe um pequeno tronco. O dono lançou a haste de árvore uma vezes para o animal lha trazer de novo.

De regresso a casa cruzaram-se com Mick que desafiou Duncan para um jogo de ténis no dia seguinte. Alby aceitou tendo ficado o encontro combinado no court do Cork Village pelas 10h30.

6.2 Kate Sheen

Kate Sheen era conhecida pelo seu bom gosto e o seu tato em escolher sempre a peça de vestuário adequada para todas as ocasiões, quer se tratasse de um encontro social, profissional ou mesmo simplesmente, de um jantar romântico.

Robert Middletune tinha efetuado reserva para o jantar de ambos nessa noite num dos seus restaurantes favoritos em plena downtown, um extremamente badalado, o que constituía um bom augúrio para o final do dia de sexta-feira e início de um fim-de-semana.

Kate Sheen chegou primeiro. Mostrou o seu maravilhoso sorriso ao funcionário da receção que a reconheceu e saudou, ao mesmo tempo que fazia uma pausa no atendimento de um casal jovem, a quem tentava explicar que as salas estavam cheias e que seria impossível tomar ali a refeição.

Kate foi conduzida a uma mesa muito próxima da janela, sob a faixa lateral esquerda da sala principal.

Naquela noite ela estava absolutamente deslumbrante. A sua escolha tinha recaído num vestido curto mas rodado, em azul céu, que contrastava com o tom de bronzeado castanho dourado da sua pele e com o seu cabelo louro. O crepe caía lindamente, marcando a silhoueta esbelta de Kate, a confeção era impecável e os pormenores de debruo em conjugação com o tamanho da saia impregnava-a de um ar muito feminino e jovial. Se o seu cabelo estivesse solto pareceria ainda mais teen, totalmente preso seria muito formal para a indumentária e assim, Miss Sheen tinha adotado um estilo de penteado arrojado, um meio solto, meio preso, assimétrico. Os brincos com um pendente ligeiro, também em azul exatamente da mesma cor dos sapatos e uma pequena bolsa branco-pérola completavam o conjunto.

Mesmo estando sentada numa mesa localizada fora do ângulo central da sala era impossível para qualquer outro cliente que entrasse, não reparar nela.

Robert Middletune chegou uns bons dez minutos mais tarde e ao entrar, abanou a cabeça para um dos lados na direção de Kate em sinal de aprovação.

  • Olá! Estás linda!
  • Obrigada! Assim desculpo o atraso! – respondeu Kate.
  • Ah, não a sério. Olha devo dizer-te que me apetece celebrar. Tive um dia soberbo.
  • Que bom! O meu foi também excelente.
  • Celebramos?!
  • O quê? Ao dia, tonto?
  • À vida, ao final da semana…
  • Alinho – interrompeu Kate. É uma boa ideia!

6.1 Estranha demora…

Giovanni Onetto preparava mais um set de slides para a sua aula de desfecho de semana. – Esta ideia de resumo/síntese em formato audiovisual parece estar a resultar – pensou enquanto hesitava quanto à música a inserir naquele terceiro tema.

Verificou todos os slides do início até ao tema oito, o último, e voltou ao terceiro. Optou por um som em voga com a intenção de captar a atenção dos estudantes. Em seguida ligou a apresentação dos slides e tomou nota da duração e das pausas. Voltou ao início e um por um, retificou as gralhas do texto. Finalmente de um pulo levantou-se da sua cadeira deixando a apresentação automática a arrancar. Colocou-se estrategicamente a um metro e meio do monitor a observá-la minuciosamente.

  • Ok! Terminei! – exclamou Giovanni como se estivesse a informar alguém em seu redor. A sua sala manteve-se silenciosa.

Em meia dúzia de passos ajustou-se de novo à sua cadeira, fechou o modo de apresentação e retirou a marca de ‘automático’ para a colocar em ‘manual’. Consultou o seu relógio e procurou o comando do TV e quando o encontrou premiu o botão ’ligar’.Oh nada de interesse … Situações de justiça no estrangeiro, preços médios de produtos alimentares… Tocou novamente o mesmo botão e as imagens desvaneceram-se.

A cadeira do costume parecia chamá-lo e ele acorreu para consultar o e-mail.

  • Tão estranho não haver notícias sobre a campanha – considerou. Este Donnati é demais! De fato! Tenho de dizer alguma coisa à Francesca, pelo menos que não há qualquer avanço.

Levantou-se e começou a passear-se pela sala com ambas as mãos como que meias presas nos pequenos bolsos dos desbotados jeans e um olhar vago como se o espaço fosse amplo e destituído de qualquer objeto, por minúsculo que fosse. Poucos instantes depois, agarrou o aparelho de telemóvel e fez uma chamada.

5.7 Interregno

Duncan Alby mantinha a sua expressão seráfica, impassível. Contudo debatia-se com um desconforto crescente mesclado de desconfiança.

O seu cliente parecia muito satisfeito, repentinamente liberto de todo o nervosismo e tiques. Ao deixar o edifício do tribunal, despediu-se efusivamente do advogado e desceu o lanço de escadas como se alguém o aguardasse em baixo. Alcançado o passeio virou à direita, no sentido noroeste e continuou o seu percurso a pé, desaparecendo rapidamente no meio dos transeuntes.

Alby estava convicto de que ele não teria prestado qualquer atenção à data marcada para voltarem a conversar sobre o processo. Após descer as escadas de saída, virou em sentido oposto ao do seu cliente e caminhou cerca de 100m, premiu o controle do comando e entrou na sua viatura. Chave na ignição, pasta no banco detrás… mas subitamente parou, recostando-se uns segundos no seu banco.
Insólita – eis a palavra exata para descrever a forma como tinha decorrido a audiência. Sem concluir como se teria saído, o seu pensamento focava-se num ponto apenas: algo lhe escapava naquele processo.

 

Inspirou fundo, tentou afastar as suas dúvidas, rodou a chave na ignição e a viatura arrancou. Trinta minutos mais tarde estava já a trabalhar no seu gabinete.

 

A luz intensa de um sol quente batia sobre a sua secretária mas Duncan Alby nem se apercebeu. Estava praticamente a meio do seu relatório quando se ouviu um forte bater na porta do gabinete.

  • Duncan, então como correu? – questionou Patrick S. Dynt após abrir a porta sem esperar por autorização para entrar.
  • Bem, eu penso – respondeu Alby. Estou prestes a concluir o relatório…
  • O adiamento foi ótimo para nós – afirmou perentoriamente S. Dynt.

Duncan Alby anuiu afirmativamente com a cabeça e disse :

  • Já sabe???
  • Ora, essas notícias correm céleres – declarou Dynt em tom jovial. Até amanhã!
  • Até amanhã Patrick.

5.6 À espera

Francesca aguardava a confirmação final de Giovanni para a concretização da impressão de todo o material. Embora fosse novata na organização começava a pensar que haveria algo de peculiar na noção da palavra ‘urgência’ destas pessoas.

De qualquer forma, a semana tinha chegado ao fim e na ausência de imprevistos, jantaria com Roberta. Para além disso teria de se decidir quanto à mesa a adquirir para a sua sala. Previdente, tirou as medidas do espaço disponível e apontou-as num bloco que guardou dentro da sua mala.

O despontar daquela manhã de sexta-feira estava divinal. Corria uma aragem quente, o céu estava muito azul, limpo e a tonalidade dos raios solares apontava já para um dia que se adivinhava muito quente. Durante os segundos que ficou na sua varanda a apreciar o ambiente, Francesca aproveitou para respirar muito  profundamente como se aspirasse absorver toda aquela envolvente matinal.

  • Tenho de despachar-me – pensou.

Saiu da varanda a contra gosto e dirigiu-se ao quarto. Preparou um vestido branco de Verão e umas sandálias pretas com um salto ligeiro. Em seguida tomou um duche, vestiu-se e saiu. O relógio marcava 07h23.

::::::::::§::::::::::
Um pouco mais abaixo no mesmo edifício, Roberta muito ensonada premia o botão da sua Linea Expresso e depois a tecla verde do comando da sua televisão.

Olhou distraidamente à sua volta e ao focar-se no écran plano, surgiu-lhe uma locutora nova vestida em tons de vermelho.

Em vez de escutar as primeiras noticias do dia, Roberta Trenni observou os detalhes do vestido, dos sapatos e do colar da locutora-repórter que entrevistava alguém, um senhor, cuja face não lhe era estranha.

  • Acho que um vestido assim me ficaria muito bem. Não tenho nada naquele tom… Vou ter de procurar nas lojas do centro – disse em voz baixa, já desperta.

Voltou à sua copa para fazer o café. Tomou-o lentamente e resolveu sair para comprar os ingredientes para fazer uma sobremesa rápida.

  • Francesca e eu iremos chegar tarde. Certamente uma fatia de bolo e um chá gelado irá saber-nos muito bem.

Uma hora e meia depois voltava a sair para se dirigir desta feita, ao seu trabalho.